Justiça

O esquema por trás da compra da Terrana: mensagens revelam quem realmente mandava no negócio

Ilustração de esquema corporativo com setas conectando empresas, celular com mensagens e dinheiro, representando lavagem de dinheiro e PCC
Esquema da compra da Terrana: mensagens revelam testa de ferro e R$ 120 milhões movimentados em dias.

Mensagens extraídas de celulares expõem uma engenharia societária montada para ocultar os verdadeiros donos da distribuidora Terrana. O Ministério Público aponta que o empresário apresentado como comprador era, na prática, um “testa de ferro” submetido a decisões de investigados com elo ao PCC. A operação envolveu R$ 120 milhões movimentados em dias, empresas abertas com capital de R$ 1 mil e um fundo de investimento usado como ponte.

O que parecia uma aquisição de mercado esconde, segundo o Gaeco, uma organização criminosa liderada por Roberto Augusto Leme da Silva (“Beto Louco”) e Mohamad Hussein Mourad (“Primo”) — ambos foragidos. As conversas mostram como a estrutura foi desenhada para passar pelo compliance e pela fiscalização.

O grupo de WhatsApp que virou prova central

Criado no fim de 2024, o grupo “Novo direção Terrana” reunia o comprador formal, Mohamad, operadores financeiros e contábeis. Para os investigadores, o conteúdo demonstra que Mohamad orientava decisões estratégicas enquanto o comprador formal executava. Em uma das mensagens, o empresário admite: “importante manter minha presença para preservar a imagem de que a empresa foi comprada por mim”.

O juiz destacou essa frase ao autorizar as medidas da Operação Carbono Oculto. A investigação sustenta que o comprador receberia 0,75% de comissão sobre a transação mais remuneração mensal por três meses — um custo baixo para quem precisava de um nome conhecido no setor de combustíveis para passar despercebido.

Quando o medo da exposição mudou a rota

Reportagens ligando a compra à Copape, a Mohamad e ao PCC desencadearam pânico no grupo. Ao receber uma matéria, o comprador escreveu: “Cagada!” e completou: “o primo está mais nervoso que eu”. A tensão aparece em outros momentos: uma funcionária passou a usar nome falso (“Camila Junqueira”) após ser citada na imprensa, fato registrado na decisão judicial.

O sócio do Banco Genial à época, Humberto Tupinambá, respondeu que não podia agir diretamente e indicou o irmão como “o único que tem como fazer algo”. Logo depois, apagou os diálogos — detalhe que a decisão judicial registra como tentativa de obstrução.

Empresas de fachada e a declaração de R$ 3 milhões que não existia

Duas holdings — Berna e Branson — foram abertas em setembro de 2024, cada uma com capital social de R$ 1 mil, tendo o comprador como titular formal. O Gaeco afirma que serviram apenas para criar uma camada entre o dinheiro real e os beneficiários finais.

  • Capital declarado: R$ 1 mil cada
  • Patrimônio atestado para o comprador: R$ 1,5 mi em aplicações + R$ 1,5 mi em imóveis
  • Realidade investigada: recursos vieram do próprio grupo investigado

A advogada do escritório Garcia Peres solicitou dados para abrir as empresas. Um operador de fundos discutiu a declaração de capacidade financeira: “Esta declaração é meramente para atestar capacidade do sócio na empresa”. O Ministério Público sustenta que a estrutura foi idealizada pelo escritório.

A engenharia financeira: R$ 120 milhões em 48 horas

O fundo Radford, administrado pelo Banco Genial, aplicou em certificados do próprio banco. O Genial concedeu crédito a Berna e Branson, que compraram ativos da Terrana. Mas o dinheiro que abasteceu o Radford, segundo a investigação, veio do grupo investigado.

Entre 24 e 26 de julho de 2024, R$ 100 milhões saíram da Aster Petróleo, passaram pela SM Serviços e pela Duvale, chegaram à Usina Itajobi e, dali, ao Radford — transferências com minutos de diferença. Outros R$ 20 milhões vieram da Entre Investimentos para conta da Usina na Credihome, usada como passagem.

Quando o comprador percebeu que dinheiro da Aster quitou obrigação da Branson diretamente, temeu a Sefaz-SP. Discutiu com Beto Louco a necessidade de o recurso “passar por outro movimento”. A decisão judicial registra que, após essa preocupação, Humberto apagou os diálogos.

O que o Banco Genial diz sobre o caso

A instituição afirma que Humberto Tupinambá não é mais sócio nem diretor desde maio de 2026 (destituição posterior aos fatos). Diz ter fornecido voluntariamente informações ao Gaeco, feito comunicações ao Coaf, atuado dentro das normas com os dados disponíveis à época e adotado medidas de governança: instauração de inspetoria, revisão de crédito, afastamento e destituição do diretor, renúncia à administração do Radford e colaboração contínua com as autoridades.

O que observar nos próximos capítulos

A investigação mira agora o destino final dos recursos e a possível lavagem por meio da distribuidora. A Terrana segue operando, mas sob lupa: qualquer movimento societário ou financeiro anômalo pode desencadear novas fases. Para quem atua no setor de combustíveis, o caso acende alerta sobre due diligence em aquisições — especialmente quando o vendedor tem pressa, o comprador tem lastro frágil e a estrutura envolve holdings recém-criadas com capital simbólico. O Gaeco promete desdobramentos; o mercado, cautela redobrada.