O presidente Lula assinou a medida provisória que cria o Desenrola 3.0, permitindo que a União compre dívidas antigas em leilão e repasse descontos mínimos de 90% ao devedor. A promessa é limpar o nome de até 15 milhões de pessoas, mas o dinheiro só começa a circular em fevereiro de 2027. Entenda as regras que valem a pena conhecer agora.
Como funciona o leilão reverso da União
A grande novidade desta fase é a inversão de papel: o governo entra como comprador. Credores — bancos, varejistas, concessionárias de água e luz — oferecem carteiras de inadimplentes em leilão. Vence quem der o maior desconto.
Se a União arrematar uma carteira com 95% de deságio, o devedor paga apenas 5% do valor original. O credor é obrigado a entregar todas as dívidas elegíveis daquele CPF, sem “picotar” o pacote. Caixa e Banco do Brasil podem operar como gestores, inclusive via fundos de investimento (FIDCs) onde a União seja cotista.
Quem se encaixa no perfil do programa
Não é qualquer dívida que entra. O filtro é rigoroso e foca no “esquecido” de longo prazo:
- Valor original: até R$ 10 mil;
- Atraso: entre 720 e 1.645 dias (aproximadamente 2 a 4,5 anos);
- Natureza: bancárias (cartão, cheque especial) e não bancárias (contas de consumo, varejo).
Dívidas muito recentes ou acima de R$ 10 mil ficam de fora. O governo estima R$ 150 bilhões em títulos elegíveis, mas projeta renegociar R$ 75 bilhões na prática, considerando adesão parcial.
O tamanho do buraco no bolso do brasileiro
Dados do Tesouro de agosto de 2026 mostram o cenário que motivou a medida: R$ 592 bilhões em dívidas negativadas com até cinco anos de atraso. São 83,9 milhões de pessoas com o nome sujo, cada uma devendo, em média, R$ 7 mil divididas em quatro credores diferentes.
O detalhe relevante para o empresário: 55% desse estoque não é bancário. Contas de água, luz, telefone e carnês de loja respondem pela maioria. Só serviços essenciais (água, luz, energia) representam 20% do total. Isso explica a inclusão forte do varejo e utilities nos leilões.
Cronograma: marque no calendário
A assinatura da MP foi o pontapé inicial. As próximas etapas ditam o ritmo real do programa:
- Setembro/2026: Publicação da MP (altera Lei 14.690/2023);
- Novembro/2026: Chamamento público para credores enviarem propostas;
- Dezembro/2026: Entrega das propostas de desconto;
- Janeiro/2027: Homologação dos lotes vencedores;
- Fevereiro/2027: Assinatura dos contratos e início do repasse do desconto ao devedor (à vista ou parcelado com juros definidos pelo CMN).
O que observar daqui para frente
As duas fases anteriores somaram 25 milhões de beneficiados e R$ 75 bilhões renegociados. Esta terceira etapa tem orçamento autorizado de R$ 15 bilhões para aquisição das carteiras. O ponto de atenção agora é a adesão dos credores não bancários: sem concessionárias e varejistas no leilão, o impacto real fica aquém do potencial. Para o devedor, a regra de ouro permanece: não quite nada antes de confirmar se sua dívida está no lote arrematado — o desconto de 90% só vale se a União comprar.
