O senador Flávio Bolsonaro (PL) viajou dos EUA para Brasília em um jato cujos donos são alvo de investigações por fraudes bilionárias. O detalhe crucial: seu vice na chapa presidencial era o relator da comissão que apurava justamente um desses nomes.
A conexão expõe um nó de interesses que o candidato evita explicar às vésperas da eleição.
O voo e os passageiros invisíveis
Em janeiro de 2025, Flávio embarcou na Flórida rumo à capital federal em uma aeronave executiva compartilhada por Daniel Vorcaro e Willer Tomaz. O primeiro é apontado como o maior fraudador da história do sistema bancário nacional. O segundo, amigo pessoal do senador, é investigado pela Polícia Federal por esquema contra aposentados do INSS.
A agenda oficial do parlamentar não registrava o deslocamento. A informação veio a público após reportagem da revista Piauí, forçando o candidato a se pronunciar dias depois.
O vice que vigiava o amigo do chefe
Alfredo Gaspar, deputado federal e escolhido para compor a chapa como vice, presidiu a relatoria da CPMI do INSS. Como relator, ele tinha acesso integral às provas contra Willer Tomaz — o mesmo Willer que dividia a propriedade do jato usado por Flávio.
A nomeação de Gaspar não seguiu o rito padrão. A articulação ocorreu durante a madrugada, com aval de Rogério Marinho, hoje coordenador político da campanha. O presidente da comissão, senador Carlos Viana, rompeu o acordo de lideranças para indicar o aliado diretamente.
Uma coincidência incômoda no hangar
O mesmo avião usado pelo senador em janeiro serviu, meses depois, ao ministro Alexandre de Moraes (STF) e sua esposa. Flagrado no desembarque, o episódio gerou ironia da campanha: Ainda bem que na época o avião era do Willer. Imagina se fosse agora, eu teria viajado no avião de Alexandre de Moraes.
A resposta desvia o foco da questão central: a proximidade com investigados por crimes contra a previdência social.
O filme, o dinheiro e a caixa-preta
A viagem coincidiu com negociações para que Vorcaro financiasse o documentário Dark Horse. Até o momento, a prestação de contas detalhada sobre a aplicação desses recursos no projeto não foi apresentada.
- Investidor: Daniel Vorcaro (réu em processos por fraude bancária).
- Projeto: Filme “Dark Horse”.
- Status da transparência: Documentação detalhada não divulgada.
A ausência de explicações técnicas sobre a origem e o destino do dinheiro amplia a pressão por respostas formais.
Estratégia de blindagem e o silêncio seletivo
A campanha opera quase exclusivamente por redes sociais e eventos controlados. Entrevistas com contraponto jornalístico são evitadas. O modelo impede que perguntas sobre a relação com Vorcaro, a atuação de Gaspar na CPMI ou a contabilidade do filme sejam feitas ao vivo.
Enquanto isso, o inquérito da Polícia Federal sobre as fraudes no INSS avança. Willer Tomaz permanece como peça-chave para entender a extensão do esquema que lesou aposentados.
O que observar nas próximas semanas
Com o calendário eleitoral encurtado, três frentes exigem monitoramento: a eventual quebra de sigilo da CPMI do INSS que possa detalhar a atuação do relator; a exigência judicial de transparência sobre o financiamento do filme; e a reação do eleitorado diante de um candidato que, investigado ou não, carrega laços diretos com personagens centrais de dois dos maiores escândalos financeiros recentes do país. A resposta nas urnas será o veredito final sobre o custo político dessa ciranda.
