Diante de 700 dos principais executivos do país, Luiz Inácio Lula da Silva cravou que estabilidade fiscal “não é mérito, é obrigação” e prometeu superávit de 0,1% este ano. Mas o que prendeu a atenção da plateia — e deve ditar o ritmo dos mercados nas próximas semanas — foi a combinação explosiva de uma proposta de reforma no Supremo, duras acusações ao dono do Banco Master e uma ironia ácida sobre a autonomia do Banco Central que o próprio setor financeiro pediu.
Estabilidade fiscal: “obrigatória, não mérito” — e a conta do superávit
No Hotel Tivoli Mofarrej, em São Paulo, o presidente herdou déficit de 2,8% e disse que entregará saldo positivo sem cortar Previdência nem programas sociais. “Tornar o pobre mais pobre não deu certo historicamente”, afirmou. A plateia, que incluía CEOs da Vale, Itaú, JBS, Cosan e Motorola, ouvia a promessa de responsabilidade fiscal casada com expansão de gastos sociais — a equação que o mercado tenta decifrar desde a posse.
Lula cobrou o grau de investimento perdido, argumentando que o risco-país caiu, mas as agências de rating não devolveram o selo. Chegou a procurá-las nos EUA para questionar a demora. O recado implícito: o ajuste está feito, a recompensa externa é que travou.
O recado que o mercado não esperava: reforma no STF e fim da vitaliciedade
No momento mais político da noite, o presidente defendeu discutir mandatos para ministros do Supremo Tribunal Federal no lugar do cargo vitalício. “A sociedade vai ter que se manifestar, porque o que está acontecendo não é bom para o país”, disse. A plateia, majoritariamente favorável a previsibilidade institucional, ouviu em silêncio a proposta que mexe na arquitetura do poder judiciário.
A fala sinaliza que, em eventual novo mandato, a relação entre Executivo e Judiciário entra na pauta de negociação congressual — variável relevante para quem precifica risco jurídico-regulatório no Brasil.
Vorcaro, agências reguladoras e o “zoo” do Banco Central
O tom subiu ao citar Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master: “Esse Vorcaro devia ser um malandro mesmo… o que ele não corrompeu com dinheiro, corrompeu com orgia”. A menção nominal a um banqueiro em evento empresarial quebrou o protocolo e expôs a tensão entre o Planalto e parte do sistema financeiro.
Na sequência, Lula mirou as agências reguladoras, citando nominalmente a ANP. Disse ter convocado dirigentes para explicar falhas de fiscalização e ouviu como justificativa o trabalho remoto de servidores. “As agências vão ter que voltar a ser agência reguladora; quem define política pública é o Estado”, decretou.
O golpe final no setor financeiro veio com ironia sobre a autonomia do BC: “Vocês brigaram pelo Banco Central independente… mas agora virou um zoo. Vocês que pediram, não fui eu”. A frase resume a frustração do governo com a taxa Selic elevada e transfere ao Congresso — e ao próprio mercado — a paternidade da estrutura atual.
Industrialização, data centers e a briga por soberania de IA
Lula usou a presença de Marcos Almeida (Brookfield/Ascenty) para celebrar a aprovação do Redata, incentivo a data centers, mas impôs condição: “Gasta-se muita energia. Não pode permitir que a energia da sociedade vá para data center”. A expansão da geração elétrica vira pré-requisito para a nova onda de investimentos em infraestrutura digital.
O presidente foi além: quer data centers nacionais para não depender de inteligência artificial chinesa ou americana. “Por que temos que ficar atrás? Temos competência para disputar com americanos e chineses”. A fala alinha-se à defesa de processamento local de minerais críticos (terras raras, lítio) — “extrair aqui, transformar aqui, industrializar aqui” — rejeitando o papel de mero exportador de commodities.
Elogiou “empresários desaforados” como Joesley Batista (J&F), que estaria entrando em foguetes e mísseis, como modelo de parceiro para o salto tecnológico pretendido.
O que observar daqui para frente
Três vetores saem do encontro com potencial de mover preços nas próximas sessões: (1) a execução do prometido superávit primário sem tesourada social, teste de credibilidade fiscal; (2) a tramitação no Congresso de qualquer proposta que altere mandatos no STF ou a governança de agências reguladoras, termômetro da relação entre Poderes; (3) a materialização do Redata e leilões de geração firme para data centers, gatilho de capex bilionário em energia e TI. O “zoo” do BC continua sob holofotes: a próxima reunião do Copom dirá se a autonomia conquista respeitabilidade ou confirma a ironia presidencial.
