Representantes dos governos Lula e Trump sentaram à mesa em Genebra nesta sexta-feira (25) e deram a largada oficial para um cronômetro decisivo: 60 dias para evitar que a disputa tarifária escale para um painel de julgamento na OMC. A reunião na Organização Mundial do Comércio foi a primeira rodada de consultas formais desde que o Brasil questionou as sobretaxas americanas. Não houve anúncio de acordo, mas o relógio começou a correr.
O efeito imediato para quem exporta
Dois pacotes de tarifas estão no centro do conflito. O primeiro, de 25%, atinge aço e alumínio sob a alegação de práticas desleais envolvendo o sistema Pix, desmatamento e propriedade intelectual. O segundo, de 12,5%, mira uma cesta ampla de produtos sob o argumento de que o Brasil não coíbe a entrada de bens feitos com trabalho forçado.
Para o exportador brasileiro, a conta é simples: perdemos competitividade no maior mercado consumidor do mundo. Setores como siderurgia, agronegócio e manufaturados sentem o impacto direto no preço final e na margem de lucro desde a imposição das barreiras.
Por que o Brasil foi à OMC e não ao bilateral
A estratégia do Itamaraty aposta no multilateralismo. No pedido formal de julho, o governo argumenta que os EUA tratam o Brasil de forma discriminatória, ferindo o princípio da nação mais favorecida — a regra de ouro do comércio global. Em resumo: Washington estaria aplicando regras ao Brasil que não aplica a outros parceiros nas mesmas condições.
A resposta americana, enviada em 10 de agosto, aceitou o diálogo, mas manteve o tom firme. Fontes do governo brasileiro admitem reservadamente: não há sinal de reversão automática das tarifas apenas pela abertura do processo.
O tabuleiro geopolítico: a China na sala ao lado
Um detalhe ignorado pela maioria dos analistas mudou a dinâmica da mesa. No mesmo dia em que os EUA aceitaram conversar, a China pediu para entrar na disputa como terceira interessada. A Casa Branca vetou a participação chinesa nas consultas bilaterais.
Isso sinaliza dois movimentos:
- Pequim monitora de perto o precedente que pode ser usado contra suas próprias disputas com Washington.
- Os EUA querem manter o controle da narrativa, evitando que a mesa vire um fórum ampliado de contestação à sua política comercial.
Para o Brasil, a exclusão chinesa simplifica o diálogo técnico, mas remove um aliado potencial na pressão por regras mais claras.
Cenários para os próximos 60 dias
O calendário agora dita o ritmo. Se ao final do prazo — final de outubro — não houver consenso, qualquer lado pode solicitar a formação de um painel. O julgamento em si pode levar mais de um ano, período em que as tarifas seguem valendo.
Três desfechos práticos estão no radar:
- Acordo setorial: Redução pontual de tarifas em troca de compromissos ambientais ou regulatórios (ex: rastreabilidade do Pix, certificação de origem).
- Suspensão temporária: Congelamento das alíquotas enquanto negociações paralelas avançam.
- Judicialização longa: Painel da OMC com risco de retaliações cruzadas autorizadas pela entidade.
O que observar daqui para frente
O empresário deve monitorar três variáveis nas próximas semanas. Primeiro, a agenda da COP30 em Belém: o governo Lula pode usar compromissos climáticos como moeda de troca para aliviar a tarifa de 25%. Segundo, o calendário eleitoral americano: qualquer sinal de flexibilização de Trump antes de novembro terá motivação doméstica. Terceiro, a disposição do Congresso brasileiro em acelerar pautas de reciprocidade comercial — a “Lei da Reciprocidade” — que serve como carta na manga nas mãos do Itamaraty.
A janela de 60 dias é curta para a burocracia, mas longa para o caixa de quem exporta. Preparar cenários de custo com e sem tarifa deixa de ser exercício de planejamento e vira necessidade de sobrevivência competitiva.
