A Eneva, maior operadora privada de gás natural do Brasil, acaba de assinar um memorando de entendimento com a Halliburton para prospectar petróleo na Venezuela. O movimento marca a entrada definitiva da companhia — controlada pelo BTG Pactual — no país que detém as maiores reservas globais de óleo. A pergunta que fica: até onde vai esse apetite brasileiro por ativos venezuelanos sob tutela americana?
O acordo que coloca a Eneva no tabuleiro venezuelano
A formalização saiu nesta semana, anunciada por Caracas. Executivos da Eneva vinham viajando à capital venezuelana há meses, segundo diplomatas ouvidos pela reportagem. O memorando com a Halliburton prevê identificar áreas de desenvolvimento conjunto, embora detalhes financeiros e operacionais permaneçam em sigilo.
Não é um salto no escuro. A Venezuela vive, desde janeiro, uma reconfiguração profunda do setor petrolífero sob a gestão interina de Delcy Rodríguez e com coordenação direta dos Estados Unidos. O governo Trump adquiriu, em agosto, controle majoritário de mais de 21% das reservas nacionais — acordo classificado pela Casa Branca como capaz de atrair US$ 100 bilhões em investimentos.
Produção em alta, mas transparência em baixa
Dados da Opep mostram que a produção venezuelana atingiu 1,2 milhão de barris/dia em agosto, ante média de 1,08 milhão em 2025. O crescimento é real, porém modesto. O que preocupa analistas de risco é a ausência de dados públicos sobre o fluxo de capital no setor desde a mudança de governo.
Para o investidor brasileiro, o cenário apresenta duas faces:
- Oportunidade: ativos de classe mundial com preço de entrada ainda depreciado pelo risco político.
- Incerteza: contratos assinados com a mesma estrutura estatal da era Maduro, agora repaginada.
O efeito manada: brasileiros avançam no Orinoco
A Eneva é a segunda grande empresa nacional a apostar na reabertura. A Fluxus Oil, Gas & Energy — braço da J&F dos irmãos Batista — comprou cerca de 50% da Petrororaima, que opera na faixa do Orinoco. Paralelamente, a Alvorada Heavy Industries, apoiada pela Galapagos Capital (fundada por ex-sócio do BTG), triplicou produção em três blocos na mesma região e negocia novas áreas.
O movimento ganhou vitrine institucional: em fevereiro de 2027, Caracas sediará a “Semana da Energia”, evento desenhado para vender o país como “parceiro energético global aberto”. A própria Eneva apoia a organização.
Segurança jurídica: o nó que não desatou
Consultores de risco dividem-se. A presença americana nas decisões de Caracas ameniza temores, mas não os elimina. A estrutura repressiva do Estado, segundo missão independente da ONU, permanece intacta. A líder opositora María Corina Machado segue impedida de retornar ao país.
Delcy Rodríguez esteve em Nova York esta semana para a Assembleia-Geral da ONU, com reunião bilateral na agenda com Trump — a primeira de um líder venezuelano no evento desde 2018. Energia e mineração dominaram a pauta.
Raio-X da Eneva: o que o investidor precisa saber
Fundação: 2001 | Sede: Rio de Janeiro
Principais acionistas: BTG Pactual, BPAC Infra, Dynamo, GQG Partners
Receita líquida (2º tri/2026): R$ 3,98 bilhões
Lucro líquido (2º tri/2026): R$ 31,2 milhões
Concorrentes diretos: Petrobras, Âmbar Energia, Engie Brasil, Axia Energia, Cosan
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão se a aposta da Eneva se traduz em valor para o acionista: a divulgação de termos financeiros do memorando com a Halliburton, a evolução do marco regulatório venezuelano sob supervisão americana e a capacidade da PDVSA de honrar contratos em moeda forte. A “Semana da Energia” de fevereiro será o primeiro teste real de apetite internacional. Quem tem exposição a óleo e gás no portfólio deve monitorar os desdobramentos com lupa — o risco-país ainda cobra prêmio alto, mas o prêmio potencial também.
