Carlo Ancelotti estreou no comando da Seleção repetindo a mesma escolha tática que travou os quatro antecessores: insistir em laterais que não existem no mercado. O empate por 1 a 1 contra a Austrália, salvo nos acréscimos por um gol de cabeça de Rayan, mascara um vazio operacional que persiste há seis anos.
A teimosia não é de hoje. De Tite a Diniz, passando por Dorival Júnior, o diagnóstico é idêntico: o Brasil não produz laterais de nível mundial há duas gerações. A resposta padrão, no entanto, segue sendo forçar peças inadequadas em um sistema que exige delas uma capacidade de ataque e cobertura que simplesmente não possuem.
O ativo que falta no balanço da CBF
Pense na lateral como uma posição de “alto custo e baixa oferta”. Nos últimos seis ciclos, a entidade gastou capital político e tempo de treinamento tentando transformar meias ou pontas em laterais, ou apostando em nomes de segunda prateleira europeia. O resultado é um buraco tático nas duas pontas do campo.
Enquanto as potências europeias — Real Madrid, Manchester City, Bayern — operam com laterais que funcionam como playmakers adicionais (Alexander-Arnold, Cancelo, Davies), a Seleção entra em campo com dois buracos negros nas alas. Isso obriga o meio-campo a cobrir 70 metros de largura sozinho.
A matemática cruel do 4-2-4 de Ancelotti
O esquema escolhido para a estreia cria uma assimetria numérica perigosa. Com quatro atacantes fixos (Vinícius Jr., Rodryga, Endrick e Estêvão) e apenas dois volantes (Bruno Guimarães e Danilo), a transição defensiva vira missão impossível.
- Isolamento ofensivo: Os pontas não recebem apoio lateral; enfrentam marcadores dobrados sem opção de passe para trás.
- Sobrecarga central: A dupla de volantes precisa proteger a zagueira, fechar os corredores laterais e iniciar o jogo — tudo ao mesmo tempo.
- Vazio entre setores: A distância entre a segunda linha de meio-campo e o quarteto de ataque chega a 40 metros em momentos de perda de bola.
Contra a Austrália, time fisicamente forte mas tecnicamente limitado, o Brasil finalizou pouco e sofreu sustos constantes nas costas dos laterais Matheuzinho e Douglas Santos. Imagine o cenário contra Argentina, Alemanha ou França.
A solução na prateleira: três zagueiros e um ‘camisa 9’ extra
A alternativa óbvia — defendida por analistas há anos — é o 3-5-2 ou 3-4-3. Ao sacar os dois laterais e inserir um terceiro zagueiro rápido (como Bremer ou Beraldo), a equipe ganha:
- Cobertura natural nas alas sem depender de especialistas inexistentes.
- Um homem a mais no meio-campo (três volantes/meias) para ditar ritmo e proteger a defesa.
- Dois centroavantes de ofício (ex: Pedro e Endrick) ou um “falso 9” flutuando, ocupando a zaga adversária e liberando Estêvão e Vinícius Jr. nas entrelinhas.
Não é invenção: Itália, Argentina (em fases) e a própria Inter de Milão de Simone Inzaghi vencem assim. O Brasil tem zagueiros de sobra e centroavantes de sobra. Faltam laterais. A lógica dita: jogue com o que tem de melhor, não com o que falta.
O custo da inércia: individualidades expostas
Quando o sistema falha, os talentos individuais queimam. Hugo Souza, goleiro do Corinthians, falhou em saídas de bola e aceitou o gol de falta australiano sem esboçar defesa — reflexo da insegurança de uma defesa desprotegida. Vinícius Jr., melhor do mundo na esquerda do Real Madrid, apareceu pouco porque não teve triangulações. Endrick, ainda em adaptação física, ficou isolado entre dois zagueiros.
O único que brilhou foi Estêvão. O jovem do Palmeiras criou as melhores jogadas por conta própria, driblando em telefone. Ele é, hoje, o único ativo ofensivo que funciona sem suporte tático. Sobrecarregá-lo é risco de lesão e esgotamento precoce.
Janela de teste desperdiçada na Austrália
O amistoso em solo australiano era o laboratório perfeito: zero pressão por resultado, imprensa distante, adversário acessível. Era o momento de testar o 3-5-2 por 45 minutos, observar a dinâmica com Pedro centralizado e Estêvão livre na direita.
Ancelotti preferiu validar o 4-2-4. A pergunta que fica não é tática, mas gestional: qual o custo de oportunidade de não experimentar? Se o sistema falhar nas Eliminatórias — onde cada ponto vale vaga na Copa —, a conta chega com juros.
O que observar daqui para frente
A próxima Data FIFA, em outubro, será o termômetro real. Dois pontos-chave definem se a gestão Ancelotti será pragmática ou dogmática:
- Convocação de um terceiro zagueiro veloz: Se Bremer ou Beraldo forem chamados, a porta para o 3-5-2 está aberta.
- Posicionamento de Estêvão: Se ele atuar como ponta-direita puro no 4-2-4, o desgaste físico será altíssimo. Se cair por dentro como meia-atacante em linha de três, o Brasil ganha criatividade central.
O ciclo de 2026 não perdoa experimentos tardios. Cada treino gasto em um sistema que exige laterais de elite — ativos que o Brasil não possui — é capital jogado fora. O relógio corre.
