Um vídeo da Polícia Federal colocou o líder das pesquisas para o governo do Rio Grande do Norte no centro de um esquema de propina que une adversários históricos. Alysson Bezerra (União Brasil) vê sua vantagem ameaçada enquanto PT e PL coordenam ataques baseados em provas do inquérito.
As imagens mostram empresários da Dismed calculando pagamentos de 15% sobre contratos públicos. A repercussão pode redesenhar o segundo turno antes mesmo da votação.
O que o vídeo revela sobre a “matemática da propina”
A PF captou conversa entre sócios da Dismed Distribuidora de Medicamentos com autorização judicial. No diálogo, Oseas Monthalggan Fernandes Costa detalha como funcionaria o rateio: de R$ 400 mil em compras, R$ 200 mil seriam desviados e, desse montante, 30% (R$ 60 mil) ficariam com o esquema.
Os valores citados são específicos: 15% para Alysson Bezerra e 10% para uma servidora identificada apenas como “Fátima”, lotada na Prefeitura de Mossoró. “Nós temos de pagar R$ 100 mil a Alysson e Fátima”, diz um dos investigados na gravação.
A Dismed recebeu R$ 13,5 milhões da prefeitura entre 2021 e 2025, período em que Alysson comandou o município. O volume de saques em espécie pelas empresas, segundo a PF, reforça a suspeita de licitude na relação com o ente público.
Aliança improvável entre PT e PL explode nas redes e debates
Cadu Xavier (PT), o “Cadu de Lula”, e Álvaro Dias (PL) travam disputa acirrada pela segunda vaga no segundo turno. Ambos miram em Alysson, que lidera as intenções de voto segundo o agregador do UOL.
No debate da TV Ponta Negra, a coordenação foi explícita. Álvaro Dias acusou: “Ele foge do assunto, tergiversa, escorrega, mas não responde do assunto”. Cadu completou cobrando: “Diga quem é a Fátima”.
A estratégica convergência expõe o temor comum: Alysson no segundo turno seria favorito quase imbatível, dado seu recall como ex-prefeito da maior cidade do interior potiguar.
A defesa do ex-prefeito e os vazios da investigação
Alysson nega envolvimento e aponta o tempo decorrido como prova de inocência. “Depois de oito meses, o que é que encontraram numa investigação? Nada!”, declarou no debate. Ele afirma ter pedido a quebra do segredo de justiça há oito meses para tornar o processo público.
O celular do candidato, segundo ele, está à disposição da Justiça. A operação Mederi cumpriu mandado de busca e apreensão em janeiro, quando Alysson ainda era prefeito. Desde então, nenhum indiciamento formal foi tornado público.
O vice-governador Walter Alves (MDB), filho do ex-governador Garibaldi Alves, mantém apoio a Alysson. O rompimento de Garibaldi com o PT impediu a renúncia da governadora Fátima Bezerra para disputar o Senado, alterando o xadrez político estadual.
O que observar nas próximas semanas
- Quebra de sigilo: Se o inquérito deixar de correr em segredo de justiça, novos elementos podem surgir ou inocentar o candidato;
- Identificação de “Fátima”: A PF suspeita que seja servidora comissionada de Mossoró. Sua oitiva pode confirmar ou derrubar a tese da propina;
- Pesquisas pós-vídeo: O impacto eleitoral real só será mensurado em levantamentos nas próximas duas semanas;
- Debates restantes: Alysson precisará apresentar resposta mais técnica que a atual, baseada apenas em “consciência tranquila”.
O cenário segue fluido. A investigação não produziu denúncia formal até aqui, mas o material audiovisual deu munição concreta a adversários que, até a semana passada, atacavam apenas no campo das propostas. Para o eleitorado potiguar, a dúvida central permanece: o vídeo é a ponta de um iceberg ou um fato isolado explorado em ano eleitoral?
