Economia

Terras raras de Minas: o elo oculto entre Trump Jr. e a nova rota mineral brasileira

Mineração de terras raras no Projeto Caldeira, Minas Gerais, para ímãs de alta performance
Terras raras de Minas Gerais alimentam cadeia de suprimentos ligada a Trump Jr. e defesa dos EUA

Uma cadeia de suprimentos que conecta o sul de Minas Gerais à Carolina do Norte passa agora pelo bolso de Donald Trump Jr. O filho do presidente americano é sócio do fundo 1789 Capital, que aportou capital na Vulcan Elements — fabricante de ímãs de alta performance para defesa, satélites e veículos elétricos. A matéria-prima? Terras raras extraídas do Projeto Caldeira, em solo brasileiro.

A operação ainda não é comercial, mas os testes de laboratório já sinalizam viabilidade técnica. A pergunta que fica: até onde o governo brasileiro permitirá que um ativo estratégico seja escoado por uma rota desenhada em Washington?

Do piloto em Minas à fábrica na Louisiana

A Meteoric Resources, mineradora australiana dona do Caldeira, processou 43 toneladas de minério em sua planta piloto até junho de 2026. O resultado: mais de 200 quilos de concentrado de terras raras com taxa média de extração de 71% dos elementos magnéticos. A empresa classificou os números como “excepcionais”.

Parte desse material cruzou o Atlântico rumo à Ucore Rare Metals, empresa canadense que prepara uma unidade de separação em Louisiana. O memorando assinado em agosto de 2024 prevê fornecimento mínimo de 3.000 toneladas anuais de carbonato misto. A Ucore faria a separação em óxidos puros — etapa hoje dominada pela China.

O acordo entre Meteoric e Ucore antecede a sanção da Política Nacional de Minerais Críticos (Lei 14.704/2024), que submete contratos internacionais de fornecimento a análise federal por risco geoeconômico. A aplicação da nova regra a um eventual contrato definitivo permanece em aberto.

O mapa da rota: três países, uma cadeia

O fluxo projetado desenha um triângulo logístico que reduz a dependência chinesa:

  • Brasil (extração): Projeto Caldeira — 78 títulos minerários, 19,2 mil hectares entre Andradas, Caldas e Poços de Caldas (MG). Recurso estimado: 1,6 bilhão de toneladas a investigar.
  • EUA (separação): Planta da Ucore na Louisiana — transformação do concentrado em óxidos separados.
  • EUA (fabricação): Vulcan Elements na Carolina do Norte — produção de ímãs de neodímio-ferro-boro para drones, mísseis, semicondutores e EVs.

A Vulcan recebeu, em 2025, compromisso condicional de empréstimo de US$ 620 milhões (R$ 3,22 bi) do Pentágono. A ProPublica revelou que Peter Navarro, assessor da Casa Branca, pressionou por celeridade na análise. Trump Jr., a 1789 Capital e o Departamento de Defesa negaram influência política.

Licenças, prazos e o fator regulatório

Em dezembro de 2025, o Conselho Estadual de Política Ambiental de Minas Gerais (Copam) concedeu licença prévia válida por cinco anos — etapa que atesta viabilidade ambiental, não autoriza obra. A licença de instalação foi protocolada em maio de 2026; sem ela, a lavra comercial não inicia.

A Meteoric projeta operação superior a 20 anos, com produção média de 12.500 toneladas/ano de óxidos. Desse total, 3.000 toneladas seguiriam para a Ucore. O cronograma prevê testes de qualificação em 2026 e fornecimento comercial a partir de 2027.

Mas a nova legislação brasileira introduz variável de incerteza. O governo Lula acelerou a aprovação do PL 2.780/2024 após detectar avanço de grupos estrangeiros — majoritariamente americanos — sobre quatro projetos de terras raras no país. O Caldeira está na lista. O mais adiantado, Serra Verde (GO), já tem participação do governo dos EUA.

O que observar nos próximos meses

Três marcos definirão se a rota sai do papel: a concessão da licença de instalação pelo Copam, a conclusão dos testes de qualificação entre Ucore e Vulcan, e a posição do governo federal sobre a aplicação da Lei 14.704 a contratos já negociados. Qualquer atraso no licenciamento empurra o início comercial para além de 2027.

Para investidores e formuladores de política industrial, o caso Caldeira funciona como teste de estresse: o Brasil conseguirá transformar reserva mineral em poder de barganha geopolítica ou repetirá o padrão de exportadora de commoditie bruta? A resposta virá na interseção entre regulação ambiental, soberania de dados geológicos e a pressa americana por ímãs que não venham de Xangai.