O Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu à tiquira maranhense o registro de Indicação de Procedência, blindando juridicamente o nome “Maranhão” atrelado à bebida. A decisão, publicada em 22 de outubro, transforma um costume secular em ativo de mercado. Mas o que muda, de fato, para quem produz, investe ou comercializa?
A certificação não fica restrita a uma única cooperativa. Qualquer produtor estabelecido nos cinco municípios delimitados poderá usar o selo, desde que siga o caderno de especificações técnicas. Essa abertura muda a dinâmica competitiva da região quase da noite para o dia.
Os cinco territórios do “ouro azul”
A área reconhecida pelo INPI corta o interior do estado, abrangendo municípios com vocação agrícola consolidada. A delimitação não foi aleatória: seguiu a presença real da cadeia produtiva e a continuidade da fabricação artesanal.
- Barreirinhas (porta de entrada dos Lençóis)
- Santo Amaro do Maranhão
- Urbano Santos
- Santana do Maranhão
- Santa Quitéria do Maranhão
Produtores fora desse polígono, mesmo no Maranhão, não podem usar a Indicação Geográfica. A proteção é estrita ao recorte geográfico onde a reputação histórica se construiu.
Por que o alambique de cobre define o preço final
O caderno de especificações exigido pelo INPI trava o modo de produção: mandioca processada em beiju, fermentação natural sem aditivos industriais e destilação obrigatória em alambiques de cobre. É esse ritual — herdado do período colonial — que justifica o valor premium.
O termo “tiquira” vem do tupi tykir, “cair gota a gota”. A referência direta ao gotejamento lento no alambique artesanal impede a escala industrial pura. Isso cria uma barreira de entrada natural: não se replica a IG apenas comprando equipamentos maiores.
Patrimônio cultural virou ativo econômico
Em 2023, o estado já havia tombado a tiquira como Patrimônio Cultural Imaterial. O registro no INPI, em 2024, fecha o ciclo: proteção simbólica somada à proteção comercial. Para o investidor, significa redução de risco de adulteração de mercado e possibilidade de rastreabilidade total.
A cooperativa requerente (Cooptaf Guaribas) atuou como articuladora, mas o certificado pertence ao território. O próximo passo natural é a organização de um conselho gestor para fiscalizar o uso da marca coletiva — e é aí que surgem oportunidades de governança e consultoria especializada.
O que observar daqui para frente
O selo está concedido, mas a batalha pelo market share começa agora. Acompanhe três movimentos decisivos nos próximos 12 meses: a estruturação do órgão de controle interno (quem audita o alambique?), a entrada de players de distribuição nacional atrás de exclusividade regional e a tentativa de registro de marca própria sobre a IG — prática comum em vinhos e queijos, inédita neste destilado. Quem chegar primeiro no varejo qualificado com a garrafa certificada captura a margem.
