O Brasil possui a infraestrutura energética cobiçada globalmente para abrigar data centers de inteligência artificial, mas corre o risco de ficar de fora do maior ciclo de investimentos da década. O alerta vem do comando da BlackRock no país.
O país tem a matéria-prima, mas falta a regra do jogo clara para competir pelo capital global. Entenda o que está em jogo e os números que explicam a urgência.
O trunfo que o mundo inveja
Em evento da Monte Bravo em São Paulo, Bruno Barino, CEO da BlackRock Brasil, foi direto: a energia brasileira é o ativo mais difícil de replicar em outras latitudes. “O Brasil tem a energia, que é o mais complexo de pegar em várias localidades, e toda a capacidade de fazer”, afirmou.
Não se trata apenas de abundância. A matriz majoritariamente renovável oferece um diferencial competitivo crucial para big techs pressionadas por metas de carbono zero. Data centers consomem eletricidade na escala de gigawatts; ter fonte limpa e barata é pré-requisito, não luxo.
O gargalo que afasta o capital
Se a energia é o “sim”, a regulamentação é o “talvez” que congela decisões de alocação. Barino resumiu o dilema: “A questão agora é como desenvolver um arcabouço regulatório e competir o recurso a nível global”.
Investidores institucionais precisam de previsibilidade jurídica e segurança contratual para travar contratos de longo prazo. Sem um marco legal moderno para IA, proteção de dados e licenciamento ambiental ágil, o capital migra para destinos com regras mais claras — mesmo que a energia lá seja mais cara ou suja.
Por que este não é um movimento especulativo
O executivo descartou a tese de bolha no setor. O argumento baseia-se na economia real da cadeia: há um “ramp-up” (aceleração) de custos agora — chips, construção, energia —, mas os ganhos de produtividade começarão a aparecer em toda a cadeia produtiva em breve.
Essa dinâmica diferencia o momento atual de ciclos de hype passados. O investimento é puxado por demanda real de computação, não apenas por valorização de ações.
O tamanho do prêmio: trilhões em jogo
A BlackRock projeta que a cadeia longa da IA — do data center à aplicação final — deve mobilizar entre US$ 5 trilhões e US$ 8 trilhões (R$ 26 tri a R$ 41,5 tri) nos próximos quatro a cinco anos. “Isso reconfigura totalmente o mundo”, disse Barino.
Para o Brasil, a fatia potencial é expressiva. Um estudo do Reglab (Centro de Estratégia e Regulação) estima que a IA pode injetar quase R$ 1 trilhão na economia brasileira entre 2027 e 2030 (valor presente).
De onde virá o crescimento brasileiro
O relatório do Reglab detalha o mecanismo desse ganho no cenário central:
- Alta do PIB: 2,77% no período (média de 0,69 p.p. ao ano).
- Motor principal (65%): ganho de produtividade dos trabalhadores.
- Motor secundário (35%): incorporação de tecnologia a máquinas, equipamentos e ativos.
Ou seja, o impacto não se restringe ao setor de tecnologia; ele transborda para indústria, serviços e agronegócio via eficiência.
O hedge natural que poucos notam
Barino destacou um atrativo financeiro adicional: grande parte da cadeia de IA opera em dólar. Receitas de data centers e contratos de nuvem costumam ser indexados à moeda americana, o que embute um hedge cambial natural no ativo. Para o investidor local, reduz a exposição ao risco-Brasil cambial sem custo adicional de derivativos.
O que observar daqui para frente
A janela de oportunidade é estreita. O ciclo de investimento em infraestrutura de IA está em fase de decisão de alocação (capex) para os próximos 5 anos. Projetos de lei em tramitação no Congresso — como o marco da IA e a reforma tributária setorial — ditarão se o Brasil captura essa onda ou assiste de fora. Acompanhe a velocidade da regulação: ela será o termômetro definitivo para saber se os trilhões projetados aterrissam em solo brasileiro.
