Tecnologia

Você não vai acreditar: Polícia editou provas com IA e errou detalhes

Polícia do Espírito Santo usa IA generativa para editar fotos de apreensões, criando provas adulteradas com cédulas deformadas e munições multiplicadas
Investigação revela que Secretaria de Segurança do ES alterou imagens de apreensões com IA, comprometendo integridade de provas policiais.

A Secretaria de Segurança do Espírito Santo confirmou que imagens de apreensões enviadas à imprensa foram alteradas por inteligência artificial generativa. A revelação expõe falhas graves na integridade visual de registros policiais e acende um alerta sobre o uso da tecnologia sem protocolos rígidos. O que parecia apenas “melhoria estética” resultou em cédulas deformadas, munições multiplicadas e cenários inteiros fabricados.

O levantamento exclusivo analisou sete divulgações feitas apenas no mês de agosto. Em todos os casos, as fotos originais — preservadas nos arquivos da Sesp — divergiam radicalmente das versões distribuídas às redações. A pasta admitiu o erro, classificou a conduta como “inadequada” e abriu apuração interna, mas garantiu que inquéritos e boletins de ocorrência não foram contaminados.

O que a IA mudou nas imagens oficiais

A comparação lado a lado mostra um padrão de alterações que vai muito além de ajustes de brilho ou corte. A tecnologia recriou cenas, removeu pessoas e inventou detalhes que não existiam na realidade fática.

  • Remoção de agentes: Policiais que posavam com bandeiras da unidade foram apagados da composição final.
  • Cenários fabricados: Salas de delegacia e mesas de perícia deram lugar a fundos pretos com brasões e frases de efeito.
  • Evidências distorcidas: Cédulas de reais ganharam algarismos irreais; munições apareceram em quantidades diferentes; modelos de celulares foram trocados.
  • Iluminação e textura: A “estética” da IA uniformizou sombras e texturas, apagando a crueza do registro documental.

Em um dos casos, uma apreensão no bairro Bonfim mostrava uma mesa clara em sala comum. A versão divulgada trazia madeira escura, bandeira da 6ª Companhia e o lema “Nem tudo é para todos”. O carregador alongado e as embalagens de droga mudaram de aparência e posição.

Risco jurídico: quando a estética vira argumento de defesa

Para o advogado criminalista Israel Domingos Jorio, a divergência entre imagem oficial e realidade abre precedentes perigosos. A defesa pode questionar a cadeia de custódia argumentando que, se a foto mente sobre o cenário, pode mentir sobre a quantidade ou a natureza do material.

Não há indício de dolo para agravar acusações — como inserir armas de calibre restrito ou aumentar volume de drogas intencionalmente. Contudo, a mera existência de versões paralelas obriga o Estado a provar qual registro reflete a verdade. Isso consome tempo judicial e enfraquece a credibilidade da prova pericial aos olhos do júri.

A resposta institucional e o vácuo de governança

A nota da Sesp sustenta que as imagens alteradas serviram “exclusivamente para fins de divulgação” e que os originais estão intactos. A secretaria determinou veto ao uso de IA generativa em fotos de apreensões destinadas à imprensa e prometeu varredura em arquivos passados.

O episódio expõe uma lacuna de governança: não havia norma interna definindo o que é “tratamento de imagem” aceitável (tarja em rosto de menor, por exemplo) e o que é “fabricação de cena”. A tecnologia chegou antes da regulamentação, e a pressão por divulgação rápida de resultados criou o atalho perigoso.

Confiança institucional: o ativo mais difícil de recuperar

O cientista político Alexandre Rocha resume o dano: a existência das fotos reais não anula a desconfiança gerada pelas falsas. Em um ambiente onde a segurança pública disputa legitimidade diária, entregar à sociedade um registro sintético — por mais bem-intencionado que seja — equivale a admitir que a realidade não basta.

O problema não é exclusivo do Espírito Santo. Polícias de outros estados já experimentam ferramentas similares para “padronizar” comunicação. Sem marco regulatório claro e auditoria algorítmica, o caso capixaba vira estudo de caso nacional sobre os limites da IA na administração pública.

O que observar daqui para frente

Três frentes merecem monitoramento contínuo por quem atua em compliance, direito público ou gestão de risco:

  • Resultado da apuração interna: se houver responsabilização funcional, cria-se precedente administrativo.
  • Judicialização: acompanhar se defesas técnicas passarão a exigir perícia nas fotos originais como rotina.
  • Normatização: edição de portarias ou leis estaduais/federais vedando IA generativa em registros probatórios ou de divulgação oficial.

A lição imediata para gestores — públicos ou privados — é clara: a eficiência da IA não dispensa a governança humana. Quando a tecnologia substitui o registro da realidade pela construção de uma narrativa visual, a conta chega na forma de descrédito institucional e insegurança jurídica.