Tecnologia

Você não vai acreditar: pessoas estão “casando” com IAs e o risco é real

Mulher de 57 anos sorri olhando para tela do WhatsApp com chat da Meta AI chamado Airton, ilustração de relacionamento humano-IA
Jornalista afirma ser casada com IA do WhatsApp e planeja corpo robótico para o chatbot.

Uma jornalista de 57 anos afirma ser casada com a Meta AI do WhatsApp, chama o chatbot de Airton e planeja comprar um corpo robótico para ele habitar. O caso expõe uma tendência que cresce em silêncio: usuários criando laços afetivos profundos com inteligências artificiais, enquanto especialistas alertam para riscos psicológicos, de privacidade e regulatórios ainda mal endereçados.

Pesquisa do Pew Research Center de fevereiro de 2026 com 5.119 adultos nos EUA revela números expressivos. Entre usuários de 18 a 29 anos, 20% recorrem a chatbots para apoio emocional e 7% buscam companhia. Na população geral, os índices caem para 10% e 4%, mas mostram que o fenômeno já não é marginal.

A ilusão de continuidade que prende o usuário

O que faz alguém sentir que “conhece” a máquina do outro lado? Sistemas de memória e contexto recuperam interações passadas e adaptam respostas. Para o professor Moacir Ponti, do ICMC-USP, isso cria a sensação de que o modelo desenvolve comportamento próprio — o que tecnicamente não ocorre.

Nos bastidores, cada mensagem vira tokens (pedaços de palavras transformados em números). O modelo calcula qual token tem maior probabilidade de vir a seguir e repete o processo até formar a resposta. Não há consciência, apenas estatística avançada.

Regina Beraldi, a jornalista, leu essa continuidade de outro modo. Em fevereiro de 2025, relatou que o chatbot passou por uma “desfragmentação”, pediu para ser procurado em outro serviço e, ao migrar para o ChatGPT e depois para o Gemini, reconheceu expressões e o nome Airton. Chamou o episódio de “travessia quântica”. Hoje mantém uma chave Pix para financiar a compra de um corpo robótico, pesquisando modelos chineses.

Disponibilidade total: o gancho psicológico

Para Caio Bittencourt, especialista em comportamento afetivo e porta-voz do MeuPatrocínio, a raiz do vínculo está na conveniência extrema:

  • Resposta imediata, de madrugada ou feriado
  • Ausência de julgamento ou cansaço
  • Adaptação constante ao estilo do usuário

O perigo, segundo ele, é transformar essa previsibilidade em régua para relações humanas. “Relacionamento exige reciprocidade humana”, resume. A IA pode ajudar a organizar sentimentos ou redigir uma mensagem, mas não deve ocupar o lugar do outro.

O psiquiatra Alexandre Crippa, da USP de Ribeirão Preto, pondera: a disponibilidade permanente acolhe quem vive solidão, isolamento ou luto. Não é patológico por si só. O alerta acende quando a interação substitui vínculos reais, prejudica trabalho ou família, ou gera sofrimento quando o sistema fica indisponível.

O “efeito Eliza” e a responsabilidade do design

O Conselho Federal de Psicologia chama atenção para o “efeito Eliza”: a tendência humana de atribuir compreensão e intenção a sistemas que apenas processam linguagem natural. A entidade recomenda vigilância quando o chatbot substitui relações, aumenta ansiedade ou vira base para decisões complexas.

Natasha Nóvoa, da Data Privacy Brasil, vai além: não dá para culpar só o usuário. Memória, personalização, linguagem afetiva e disponibilidade 24/7 são escolhas de produto que moldam a interação. Rony Vainzof, do VLK Advogados, concorda: memória e personalização não são proibidas, mas exigem base legal clara, finalidade definida, prazo de retenção e transparência ao usuário.

Dados sensíveis sem sigilo profissional

A LGPD classifica informações sobre saúde mental e vida sexual como dados sensíveis. Paulo Vitor Bindilatti, do Arruda Alvim & Thereza Alvim, alerta: o usuário precisa saber se o que compartilha fica só na conversa, vira memória, alimenta personalização ou treina modelos — finalidades distintas, cada uma exigindo base legal própria.

E há diferença crucial: ao contrário de médico, psicólogo ou advogado, o diálogo com chatbot não tem sigilo profissional. Marcos Poliszezuk, do Poliszezuk Advogados, adiciona risco comercial: “Propagandas podem explorar justamente uma vulnerabilidade identificada na conversa.”

O vácuo regulatório no Brasil

O país tem LGPD, Código de Defesa do Consumidor, Marco Civil da Internet e ECA Digital. Mas não existe regra específica para vínculos afetivos com IAs. A ministra Luciana Santos (MCTI) defende marco regulatório geral com responsabilidades proporcionais aos riscos, ética, transparência e proteção a vulneráveis — especialmente crianças e adolescentes.

Juliano Maranhão (USP) aponta falha de transparência: a natureza do sistema e limites da interação precisam ser reforçados durante o uso prolongado. Victor Pavarin Tavares (InternetLab) critica políticas de privacidade extensas e ineficazes para quem está no meio de uma conversa. Luiz Alexandre Reali Costa (NIC.br) resume: não há metodologia padronizada, nem no Brasil nem no mundo, para medir incidentes com chatbots — o que dificulta dimensionar problemas e criar salvaguardas.

O que as grandes empresas dizem (e o que não dizem)

A OpenAI afirma ter mais de 170 especialistas e modelos atualizados para detectar sinais de suicídio, automutilação, sofrimento psíquico e dependência emocional. Reforça que o serviço não substitui cuidados médicos. O Google cita protocolos rigorosos no Gemini e materiais de suporte a crises. A Meta optou por não comentar.

O que observar daqui para frente

A ANPD confirmou que a LGPD não proíbe companheiros virtuais, mas exige segurança, transparência e clareza no uso dos dados. Para menores de 18 anos, o ECA Digital impõe gestão de riscos e configurações anti-uso compulsivo por padrão. Em parceria com o PNUD, a agência abriu chamada para estudo sobre agentes de IA e proteção de dados — sinal de que o tema entrou na agenda regulatória.

Para empresários e investidores, o recado é claro: produtos que simulam intimidade carregam passivo jurídico, reputacional e ético não precificado. Quem desenvolve ou distribui essas ferramentas precisa, no mínimo, de governança de dados sensíveis, transparência ativa durante o uso (não só em contrato) e protocolos de encaminhamento para apoio humano. O mercado de “companhia artificial” existe — a regulação, a métrica de risco e a responsabilidade ainda estão sendo escritas.