Internacional

Cerco na Sibéria: 6 Mortes em 30 Dias e a Cidade Refém dos Ursos

Urso-pardo na floresta siberiana perto de Krasnoyarsk, região com aumento de ataques fatais
Sibéria enfrenta onda de ataques de ursos-pardos: 6 mortes em 30 dias deixam cidades em alerta máximo

Em apenas trinta dias, seis pessoas perderam a vida para ursos-pardos na região de Krasnoyarsk, na Sibéria. A escalada de violência fez as autoridades abrirem uma investigação criminal por suspeita de negligência na gestão da fauna. O que está transformando a floresta em armadilha mortal?

A cidade que virou ‘presídio a céu aberto’

Na vizinha Khakássia, o relato é de cinema de terror: a cidade de Abaza, com seus 10 mil habitantes, está literalmente cercada. O vice-chefe do governo local, Dmitry Buchenik, admitiu que a população viveu uma “noite alarmante” com animais “por todos os lados”.

Três ursos foram abatidos — um deles descrito como excepcionalmente grande. Vídeos amadores mostram um nadando tranquilo no rio que margeia o perímetro urbano e outro trio atravessando a rodovia diante de carros parados. O medo mudou a rotina: sair de casa virou cálculo de risco.

O dado que explica o caos: população dobrou

Não é azar estatístico. O Ministério de Recursos Naturais da Rússia confirma que a população de ursos-pardos mais que dobrou desde 1990, saltando para quase 308 mil animais em 2026. Mais bichos, menos território, encontro inevitável.

O Comitê de Investigação aponta o dedo: funcionários públicos teriam falhado no controle populacional e na criação de barreiras para impedir a entrada em áreas habitadas. A omissão, agora, custa vidas.

Cronologia de um mês letal

A série de fatalidades começou cedo em setembro e não parou:

  • Início de setembro: dois aposentados encontrados mortos com sinais de ataque perto de Podtyosovo.
  • 6 de setembro: trabalhador de 40 anos morto ao cruzar a região florestal.
  • Semanas seguintes: mais três vítimas em circunstâncias similares.
  • 23 de setembro: guarda-florestal de 39 anos atacado enquanto monitorava máquinas em área de mata.

O paradoxo das estatísticas oficiais

Aqui está o contraponto que intriga especialistas: o mesmo ministério que registra a explosão populacional garante que o número total de ataques no país permanece estável, entre 20 e 30 por ano. O Ministério de Emergências reforça: na maioria dos encontros, o urso foge.

Se a regra geral é a fuga, por que Krasnoyarsk e Khakássia viraram exceção sangrenta? A hipótese mais forte aponta para a pressão habitacional: expansão urbana e atividade madeireira empurram os animais para o contato direto, removendo a zona de amortecimento natural.

O que observar daqui para frente

A investigação por negligência pode criar um precedente jurídico: gestores públicos passam a ser responsabilizados por falhas no manejo de fauna sinantrópica. Para investidores e empresas com ativos na região — madeireiras, mineradoras, logística —, o sinal é claro: protocolos de segurança perimetral e monitoramento de fauna deixaram de ser “boa prática” para virar exigência de sobrevivência e compliance legal. O próximo relatório populacional, esperado para 2027, ditará se o cerco se expande ou se o abate controlado reverte a curva.