Um working paper do FMI sobre quatro décadas de dados no Butão confirma: renda crescente quase não move a agulha da felicidade — e o Brasil expõe esse paradoxo com números contundentes. Com o “índice de miséria” na mínima histórica, a satisfação com a vida ainda patina 5% abaixo do pico de 2014. O que está faltando na equação?
O paradoxo butanês e o espelho brasileiro
O estudo (WP 2026/192) revisita a Felicidade Interna Bruta, bandeira butanesa desde os anos 1970. A conclusão ecoa o paradoxo de Easterlin: o PIB per capita disparou, mas o bem-estar subjetivo avançou devagar. Renda é condição necessária, não suficiente.
No Brasil, o World Happiness Report mede satisfação com a vida numa escala de 0 a 10. Em 2022, o indicador tocou o fundo do poço: 6,11. Houve recuperação de 8% até 2025, chegando a 6,63. Ainda assim, o patamar permanece 5% aquém do auge de 2014 (6,98). São médias móveis de três anos, o que suaviza ruídos, mas não apaga a tendência.
Miséria recorde, satisfação estagnada: os números que não batem
O “índice de miséria” — soma de desemprego e inflação — ronda 9,7 pontos, o menor nível desde 1996. Em 2014, quando a felicidade bateu o recorde, ele superava 13 pontos. Nunca estivemos tão “pouco miseráveis” pela métrica macroeconômica clássica.
Mas a percepção subjetiva diverge. Isso sinaliza que variáveis não capturadas pelo duplo dígito da inflação ou pela taxa de desocupação (hoje em 5,5%) pesam mais na balança do bem-estar.
Segurança: a queda nos homicídios e a explosão invisível
O dado oficial anima: mortes violentas intencionais caíram para 19,1 por 100 mil habitantes em 2025, o menor patamar da série do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (eram 27,7 em 2012).
Porém, pesquisas Quaest colocam segurança/violência como o principal problema do país para cerca de 30% dos brasileiros. A percepção não é irracional:
- O patamar de homicídios segue elevado para padrões internacionais.
- Crimes de estelionato explodiram: 2,3 milhões de registros em 2025, alta de 430% desde 2018.
Como notou The Economist, facções migraram do tráfico para golpes virtuais — menos corpos, mais vítimas financeiras e lucro maior.
O efeito das bets: quando o lazer vira risco sistêmico
Outro vetor de insatisfação emerge das apostas online. Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg mostra que 88,5% dos brasileiros veem prejuízo líquido ou majoritário para a sociedade. A intuição tem base empírica rigorosa.
Estudo de Carvalho, Firpo, Freitas e Scatimburgo cruzou transações bancárias com o registro de crédito do Banco Central. Iniciar nas apostas eleva em 20% a probabilidade de inadimplência geral (39% no cartão de crédito), reduz o limite de crédito em 16% e derruba em 43% a variação mensal do saldo em conta. Existe causalidade reversa: dificuldade financeira prévia também empurra para o jogo.
O que observar daqui para frente: bem-estar intertemporal e contas públicas
Maximizar o bem-estar exige olhar além do ciclo econômico curto. Segurança real (não apenas percepção), regulação de atividades com externalidades negativas — bets, poluição, mudanças climáticas — e investimento em saúde e educação formam o pacote.
A sustentabilidade intertemporal impõe um teto: não há Felicidade Interna Bruta duradoura sem PIB crescente e, crucialmente, sem responsabilidade fiscal. Endividamento público explosivo compra bem-estar hoje à custa do amanhã. O equilíbrio das contas não é ortodoxia contábil; é pré-condição para que a satisfação com a vida volte a subir — e permaneça lá.
