A Prefeitura de Montes Claros acaba de expandir um projeto que transforma a relação de crianças e adolescentes com o dinheiro, o consumo e o meio ambiente. Mais de quatro mil estudantes da rede municipal passarão por essa formação a cada ano. O que começou como resposta a uma denúncia individual hoje desenha um modelo que outras cidades já observam de perto.
Da queixa de um morador a uma escola permanente
Tudo nasceu de uma ação civil pública. Um cidadão procurou o Ministério Público contra uma cobrança indevida; o acordo resultante financiou a reforma do Procon e a construção da Escola Municipal de Educação para o Consumo, anexa ao órgão. O recurso que resolveria um caso isolado virou política pública de alcance coletivo.
A unidade iniciou as atividades em 2025 com a proposta de ir além da educação financeira tradicional. O currículo mistura direitos do consumidor, planejamento orçamentário, psicologia do consumo, descarte correto de resíduos e sustentabilidade.
Para a coordenadora pedagógica Elisângela Mesquita Silva, a metodologia aposta na experiência concreta: “articulamos conhecimentos às vivências cotidianas dos cidadãos”.
O que muda na sala de aula
Alunos do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental participam de módulos que conectam conceitos a situações reais. Ana Clara, 12 anos, resumiu a lição inaugural: “somos consumidores desde quando nascemos até quando morremos”.
Os eixos pedagógicos incluem:
- Planejamento financeiro e uso consciente de crédito
- Proteção jurídica nas relações de consumo
- Segurança digital e publicidade algorítmica
- Empreendedorismo e pensamento crítico
- Responsabilidade socioambiental
A proposta é que o conhecimento tenha aplicação imediata — da decisão de compra ao descarte de embalagens.
O desafio da era digital
O promotor de Justiça Felipe Gonçalves Caires, coordenador Regional de Defesa do Consumidor, aponta o cenário que motivou a expansão: “algoritmos, plataformas digitais, superendividamento, bets, consumismo e urgência pela sustentabilidade”.
Compras por aplicativo, publicidade direcionada e apostas on-line entram no programa como temas de cidadania econômica. A ideia é formar consumidores que compreendam os mecanismos por trás da tela — e, no futuro, fornecedores que respeitem esses mesmos mecanismos.
Formação que transborda a escola
O projeto não para nos alunos. Professores e servidores públicos também passam por capacitação contínua, criando multiplicadores dentro e fora da rede de ensino. A meta é disseminar uma cultura de prevenção de conflitos, informação e participação cidadã.
Montes Claros passa a figurar entre os poucos municípios brasileiros com estrutura dedicada exclusivamente à educação para o consumo — um diferencial que atrai olhares de gestores públicos e especialistas em políticas educacionais.
O que observar daqui pra frente
Os primeiros indicadores de impacto devem surgir nos próximos ciclos letivos: redução de reclamações no Procon envolvendo jovens, adesão a programas de poupança escolar e mudança de hábitos de descarte nas comunidades atendidas. Se a experiência se consolidar, o modelo pode ser replicado em outras redes municipais — transformando a educação para o consumo de projeto piloto a política de Estado.
