Educação

Como uma cidade blinda 4 mil alunos contra armadilhas do consumo digital

Alunos aprendendo educação financeira na Escola Municipal de Consumo de Montes Claros
Escola municipal pioneira ensina educação financeira e direitos do consumidor a 4 mil estudantes por ano em Montes Claros.

Montes Claros lançou uma escola municipal que ensina educação financeira e direitos do consumidor a mais de quatro mil estudantes por ano. Mas o que torna esse modelo diferente de tantas outras iniciativas que ficam no papel?

O nascimento improvável de uma escola de consumo

Tudo começou com uma denúncia individual ao Ministério Público sobre uma cobrança indevida. O desdobramento foi uma ação civil pública e um acordo que destinou recursos para reformar o Procon local e construir a Escola Municipal de Educação para o Consumo. Inaugurada em 2025, a unidade funciona em espaço anexo ao órgão de defesa do consumidor e atende alunos do ensino fundamental da rede pública.

A proposta vai além do básico: planejamento financeiro, consumo ético, sustentabilidade, proteção jurídica, uso seguro de tecnologias digitais e empreendedorismo compõem o currículo. A meta é transformar a educação para o consumo em ferramenta permanente de cidadania.

O desafio dos algoritmos e das bets

O promotor de Justiça Felipe Gonçalves Caires, coordenador regional de defesa do consumidor, resume a urgência: vivemos em uma era de publicidade algorítmica, compras por aplicativos, superendividamento, apostas on-line e consumismo acelerado. “Eles também serão os futuros fornecedores”, destaca.

Para enfrentar esse cenário, a escola estruturou seu programa em torno da cidadania econômica. Veja os eixos principais:

  • Planejamento e controle financeiro – orçamento, poupança, crédito consciente.
  • Direitos e deveres do consumidor – contratos, reclamações, proteção legal.
  • Consumo digital seguro – identificação de golpes, privacidade, publicidade direcionada.
  • Sustentabilidade e descarte responsável – impacto ambiental, economia circular.
  • Empreendedorismo e pensamento crítico – inovação, participação cidadã.

Metodologia: da teoria para a prática do dia a dia

A coordenadora pedagógica Elisângela Mesquita Silva explica que a metodologia prioriza a experienciação. Os conteúdos partem de situações reais — como a análise de um contrato de celular ou a simulação de um orçamento familiar — para que o aprendizado tenha aplicação imediata.

Além dos estudantes, a unidade oferece formação continuada a educadores e servidores públicos. A ideia é criar um efeito multiplicador: o conhecimento sobre relações de consumo sai da escola e contamina a comunidade, fortalecendo uma cultura de prevenção.

O que isso significa para o mercado e para o futuro

Uma geração que entende de juros compostos, cláusulas abusivas e sustentabilidade tende a tomar decisões de compra mais racionais e a cobrar mais transparência das empresas. Para investidores e empreendedores, isso sinaliza um consumidor mais exigente e um futuro quadro de colaboradores com melhor letramento financeiro — o que reduz riscos de endividamento e melhora a produtividade.

Montes Claros se posiciona como referência nacional nesse modelo. A experiência demonstra que recursos de acordos judiciais podem ser convertidos em infraestrutura educacional duradoura, com potencial de replicação em outros municípios.

O que observar daqui para frente

Acompanhe a expansão do projeto para além dos muros da escola: a capacitação de professores e servidores pode acelerar a disseminação dos conteúdos. Outro ponto de atenção é a mensuração de resultados — indicadores de endividamento familiar, taxa de reclamações no Procon e desempenho em avaliações de letramento financeiro dirão se a iniciativa cumpre a promessa de formar consumidores realmente mais conscientes.