Tecnologia

Flávio Bolsonaro em MG: O plano para terras raras que pode mudar o jogo industrial

Flávio Bolsonaro em Governador Valadares visitando laboratório de terras raras da FIEMG
Flávio Bolsonaro anuncia plano para expandir polo de terras raras em Minas Gerais.

Flávio Bolsonaro desembarcou em Governador Valadares nesta quinta-feira (24) com uma proposta que mexe direto na espinha dorsal da indústria tecnológica: expandir e modernizar o laboratório de terras raras da FIEMG. A promessa não é apenas mais uma fala de palanque — ela mira um gargalo estratégico que o Brasil carrega há décadas.

O candidato do PL à Presidência afirmou que, se eleito, usará o governo federal para transformar a estrutura atual em um polo de processamento, separação mineral e produção de ímãs permanentes. Mas o que isso significa, na prática, para quem investe ou empreende no setor?

Por que terras raras viraram prioridade absoluta

Terras raras não são “raras” no sentido geológico — o problema é a concentração de mercado. A China controla cerca de 60% da extração e mais de 85% do processamento global. Quem detém a separação e a fabricação de ímãs de neodímio e disprosío, detém a cadeia de veículos elétricos, turbinas eólicas, smartphones e defesa aeroespacial.

Minas Gerais possui reservas conhecidas em Araxá, Poços de Caldas e no Quadrilátero Ferrífero. O laboratório da FIEMG já existe, mas opera em escala de pesquisa. A proposta de Flávio é saltar da bancada para a planta piloto industrial.

O que o laboratório faria de diferente

  • Separação de elementos: hoje, o Brasil exporta concentrado bruto; a separação individual (óxidos de alta pureza) ocorre quase toda no exterior.
  • Produção de ímãs permanentes: etapa de maior valor agregado — essenciais para motores de carros elétricos e geradores eólicos.
  • Qualificação de mão de obra: formação de químicos, metalurgistas e engenheiros de processos raros no mercado nacional.

Se executado, o projeto encurta a cadeia: minério → óxido → metal → liga → ímã → componente final. Cada flecha à direita multiplica o faturamento por tonelada.

Mineração e agronegócio: as outras duas pernas do discurso

Além do laboratório, Flávio prometeu reduzir entraves burocráticos para licenciamento mineral — ponto sensível desde o novo marco legal de 2022 — e ampliar verbas para pesquisa geológica. Para o agronegócio, a bandeira é um seguro agrícola mais robusto, previsibilidade orçamentária e infraestrutura de escoamento (ferrovias e rodovias) ligando o interior mineiro aos portos.

O candidato citou nominalmente a Ferrovia de Integração Centro-Oeste (FICO) e a duplicação da BR-381 como prioridades logísticas. São obras paradas ou em ritmo lento há anos; a menção direta sinaliza que, se eleito, tentará destravar verbas do PAC ou atrair concessões privadas.

Ajuste fiscal: corte de ministérios e IA no controle de gastos

Na seara fiscal, Flávio repetiu a receita do governo anterior: enxugar a máquina. Propôs reduzir o número de ministérios (hoje são 37) e cortar cargos comissionados. A novidade foi defender o uso de inteligência artificial para monitorar despesas federais em tempo real — painéis abertos, alertas automáticos de superfaturamento e cruzamento de dados de contratos.

Também propôs centralizar compras do governo federal em uma única plataforma, argumentando que ganhos de escala derrubariam preços unitários. A medida exigiria mudança na Lei de Licitações (14.133/2021) e resistência de parlamentares que hoje influenciam emendas de execução obrigatória.

O calendário eleitoral e o que vem por aí

Após a entrevista à Inter TV dos Vales, Flávio seguiu para Teófilo Otoni, onde participou de ato com o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). A dobradinha não é casual: o Vale do Mucuri e o Jequitinhonha concentram eleitorado conservador forte e são bases de onde o PL pretende ampliar votação no segundo turno.

O candidato evitou projetar números de investimento para o laboratório de terras raras. Não há, até o momento, estudo de viabilidade econômica público nem cronograma de fases. O que existe é a intenção política — e, em ano de eleição, intenção vira moeda de troca.

O que observar daqui para frente

Três variáveis dirão se a proposta sai do papel: (1) a definição de fonte orçamentária — FNDCT, BNDES, PPI ou emendas?; (2) a articulação com a ANM e o MME para acelerar licenciamentos de projetos de terras raras já em tramitação; (3) a reação do setor privado, que historicamente evita investir em separação sem garantia de demanda interna de longo prazo. Se você atua em mineração, tecnologia ou logística, marque no radar: o próximo governo, seja qual for, terá de enfrentar o nó das terras raras. Minas está no centro do tabuleiro.