Cultura

Bad Bunny cede hit para Lula: a mensagem oculta sobre terras raras e Trump

Bad Bunny e Lula em campanha: música Lo Que Le Pasó a Hawaii adaptada para soberania e terras raras
Campanha de Lula usa hit de Bad Bunny adaptado para defender soberania nacional e terras raras.

A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estreou, nesta terça-feira (23), uma peça publicitária embalada por Lo Que Le Pasó a Hawaii, de Bad Bunny, com autorização direta do artista porto-riquenho. A escolha não é apenas estética: a letra adaptada transforma o hit vencedor do Grammy em um manifesto sobre soberania nacional, citando explicitamente rios, praias e terras raras. O alvo da narrativa vai além da disputa doméstica.

O vídeo contrapõe a figura do presidente à do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e a iniciativas associadas a Donald Trump. Mas a pergunta que fica é: até que ponto uma música pop pode funcionar como instrumento de geopolítica eleitoral?

A música como arma geopolítica

A faixa original, do álbum Debí TiRAR MáS FOToS, aborda a colonização do Havaí e a perda de identidade porto-riquenha sob influência americana. A campanha transportou essa metáfora para o Brasil. A versão adaptada alerta: “Querem tomar o rio, e também a praia, querem as terras raras, querem que a gente saia”.

O trecho eleva o debate para ativos estratégicos. Terras raras são essenciais para tecnologia de defesa, transição energética e eletrônicos. Mencioná-las em propaganda eleitoral sinaliza que a soberania sobre recursos minerais será bandeira central.

  • Recurso citado: Terras raras (minerais estratégicos).
  • Contexto original: Gentrificação e soberania em Porto Rico/Havaí.
  • Adaptação: Defesa do território e recursos naturais brasileiros.

O recado direto para Flávio Bolsonaro e Trump

A edição intercala a música com imagens de apoiadores de Jair Bolsonaro portando bandeiras dos Estados Unidos. A peça vincula explicitamente Flávio Bolsonaro à proximidade com o ex-presidente americano. A movimentação ocorre dias após Lula condenar interferências estrangeiras no processo eleitoral brasileiro durante discurso na Assembleia-Geral da ONU.

Bad Bunny, por sua vez, carrega histórico de confronto com Trump. Em fevereiro, sua apresentação no Super Bowl LX — toda em espanhol e com bandeiras latino-americanas — gerou críticas do republicano. O artista chegou a evitar turnês nos EUA para não expor fãs imigrantes a riscos de deportação.

Wagner Moura e a narrativa da identidade

A abertura fica por conta do ator Wagner Moura. Ele resgata a etimologia do sobrenome “Silva” — do latim silva, selva — para construir uma genealogia política: “Quem nascia aqui, para eles, era ‘da selva’. O povo brasileiro sempre foi ‘da Silva'”. O recurso retórico busca transformar um sobrenome comum em símbolo de resistência anticolonial.

O encerramento crava o slogan da peça: “O Brasil tem um único dono: o povo brasileiro.” A frase ecoa o discurso da ONU e fecha o ciclo temático da propaganda.

O que observar daqui para frente

O uso autorizado de um artista global como Bad Bunny, com viés político declarado, abre precedente para colaborações culturais transnacionais em campanhas nacionais. Para analistas de risco político e investidores, três vetores merecem monitoramento:

  • Discurso de soberania mineral: A menção a “terras raras” antecipa pautas regulatórias sobre mineração estratégica.
  • Relação bilateral EUA-Brasil: A narrativa anti-Trump pode tensionar a diplomacia caso o republicano retorne à Casa Branca.
  • Judicialização: O PT já acionou TSE e STF alegando interferência americana; a peça reforça o arcabouço argumentativo.

A arte, aqui, deixa de ser coadjuvante para virar evidência documental de uma estratégia de poder.