A pobreza na Argentina saltou para 32,3% no primeiro semestre de 2026, revertendo a trajetória de queda que embalava o discurso oficial. O avanço de 4,1 pontos percentuais em seis meses acende um alerta vermelho no Palácio Rosada.
Pela primeira vez desde que a inflação foi domada, o indicador social piora. A extrema pobreza também subiu — de 6,3% para 7,5% — e atinge com força desproporcional as crianças.
O retrato das famílias nas ruas
Em Buenos Aires, cozinhas comunitárias voltam a encher. Clubes de troca — prática típica de crises passadas — ressurgem nos bairros periféricos. Famílias recorrem a empréstimos de curto prazo apenas para colocar comida na mesa.
O instituto oficial Indec define como pobre quem não cobre uma cesta básica de bens e serviços estimada em US$ 340 mensais. Quem não alcança US$ 150 — só para alimentação — entra na extrema pobreza.
O recorte etário assusta: 44,5% das crianças até 14 anos são pobres. Mais de uma em cada dez vive em extrema privação.
O que os números não dizem sozinhos
A Universidade Católica Argentina (UCA), termômetro antecipado das estatísticas oficiais, projeta que a taxa pode chegar a 35% até dezembro. Se confirmado, apaga parte da queda que levou o índice a 28% no fim de 2025.
O diretor do Observatório da Dívida Social da UCA, Agustín Salvia, quantifica o drama: a cada trimestre, entre 400 mil e 450 mil argentinos cruzam a linha da pobreza.
- Pico recente: 52,9% no 1º semestre de 2024 (pós-desvalorização de 50% do peso)
- Piso atingido: 28,2% no 2º semestre de 2025
- Patamar atual: 32,3% no 1º semestre de 2026
- Projeção UCA: 35% até o fim do ano
Inflação baixa não resolve mais
A inflação caiu a 1,7% em agosto — menor nível em 14 meses. Mas analistas alertam: os ganhos sociais fáceis da desinflação se esgotaram. Nicholas Watson, da consultoria Teneo, resume: “a parte mais fácil da melhora já chegou ao fim”.
O motor da pobreza hoje não é o desemprego — que subiu a 7,9%, maior desde 2021 —, mas a precarização do trabalho. Eduardo Donza, também da UCA, explica: quando a renda falta, as famílias “inventam ocupações” — catadores, vendedores ambulantes, comida na estação de trem.
Cerca de 30 mil empresas fecharam desde a posse de Milei. Setores industriais e do varejo sangram com a perda de poder de compra e a abertura abrupta às importações.
O custo político da austeridade
Milei venceu com apoio massivo de baixa renda, cansada de inflação crônica. Esse eleitorado agora dá sinais de ruptura. Pesquisa AtlasIntel de setembro mostra desaprovação de quase 70% entre quem ganha até US$ 650 mensais. Um ano atrás, era 57%.
No geral, 58% desaprovam o governo; 38,1% aprovam.
Comerciantes relatam o vazio. Gustavo Pérez, dono de ferragem no norte da capital: “Vendia dez carrinhos de mão; hoje vendo um. Votei nele esperando melhora, me decepcionei”.
O que observar daqui para frente
O governo promete não ceder: “não vai se desviar nem um milímetro”, disse porta-voz oficial à Reuters. Nenhum gasto extra ou subsídio renovado em ano pré-eleitoral.
A equação para 2027 depende de variáveis que o ajuste fiscal não controla sozinho: geração de emprego formal, recuperação real de salários e resposta do setor privado à desregulamentação. Se a pobreza seguir subindo, a base eleitoral que elegeu Milei pode ser a mesma que o derrotará.
