Economia

O paradoxo brasileiro: miséria em queda recorde, mas felicidade longe do pico

Gráfico mostra índice de miséria do Brasil em 9,7 pontos, menor desde 1996, com ícone de felicidade estagnado
Miséria cai ao menor nível em 27 anos, mas satisfação dos brasileiros segue 5% abaixo do pico de 2014.

O índice de miséria do Brasil — soma do desemprego com a inflação — atingiu 9,7 pontos, o menor nível desde 1996. Ainda assim, a satisfação com a vida dos brasileiros permanece 5% abaixo do auge de 2014. O abismo entre macroeconomia e percepção expõe um diagnóstico incômodo: renda é necessária, mas não basta.

Um working paper do FMI revisitou quatro décadas da Felicidade Interna Bruta do Butão. A conclusão ecoa o paradoxo de Easterlin: o crescimento acelerado da renda butanesa teve associação fraca com o bem-estar medido. O Brasil ilustra a tese com números precisos.

O que os números mostram — e o que escondem

O World Happiness Report usa média móvel de três anos em escala de 0 a 10. Em 2022, o Brasil marcou 6,11, o piso da série iniciada em 2011. Houve recuperação de 8% até 2025, chegando a 6,63. O pico histórico, contudo, segue em 6,98, registrado em 2014.

No mesmo 2014, o índice de miséria superava 13 pontos. Hoje, com desocupação em 5,5% e IPCA em 4,2% nos 12 meses, o indicador macroeconômico está nas mínimas. Nunca o país esteve tão “pouco miserável” pela métrica tradicional — e, paradoxalmente, os brasileiros se declaram menos satisfeitos que há uma década.

Segurança: o fator invisível nas planilhas

As mortes violentas intencionais caíram para 19,1 por 100 mil habitantes em 2025, o menor patamar do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (eram 27,7 em 2012). A queda é expressiva e sustentada desde 2018.

Mas a percepção não acompanha a estatística. Pesquisa Quaest aponta segurança e violência como o principal problema do país para cerca de 30% dos brasileiros. Dois elementos explicam o descompasso:

  • O patamar de homicídios segue elevado para padrões internacionais.
  • Explodiram os crimes de estelionato, majoritariamente virtuais: 2,3 milhões de registros em 2025, alta de 430% desde 2018.

Como registrou The Economist, facções migraram do tráfico para negócios mais lucrativos e menos violentos: menos assassinatos, mais dinheiro — e muito mais vítimas.

O efeito das apostas online no bolso e na cabeça

Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg desta semana mostra que 88,5% dos brasileiros veem apenas prejuízos nas bets. A percepção encontra respaldo em dados bancários.

Estudo de Carvalho, Firpo, Freitas e Scatimburgo cruzou transações com o registro de crédito do BC. Quem começa a apostar:

  • Eleva em 20% a probabilidade de inadimplência (39% no cartão de crédito);
  • Perde 16% no limite de crédito;
  • Vê a variação mensal do saldo em conta cair 43%.

Há causalidade reversa: dificuldade financeira prévia aumenta a chance de iniciar nas apostas. O ciclo se retroalimenta.

O que observar daqui para frente

Maximizar bem-estar intertemporal exige olhar além do PIB. Segurança, saúde, educação e regulação de atividades com externalidades negativas — apostas, poluição, mudanças climáticas — compõem a equação.

E há um piso inegociável: sustentabilidade fiscal. Não há felicidade interna bruta duradoura sem contas públicas equilibradas e endividamento sob controle. O bem-estar de hoje não pode ser financiado com o bem-estar de amanhã. Acompanhar a evolução do índice de miséria, da violência percebida e do endividamento das famílias dirá mais sobre o futuro do país do que qualquer projeção de crescimento isolada.