Cultura

O lado que o palco nunca mostrou: amiga revela o Rick simples que o Brasil não viu

A professora e gestora Adriana Aguiar conviveu com Rick por oito meses no governo do Tocantins e descobriu um homem muito diferente do ídolo dos palcos. Doze anos depois, ela guarda memórias de cafés coados em copo de extrato de tomate e shows íntimos no quintal da casa dos pais dele.

O cantor morreu na segunda-feira (21) aos 56 anos, vítima de queda de helicóptero na Serra Catarinense. O acidente matou também o empresário Bruno Avelar, o videomaker Paulo Soares, o piloto Antônio Roberto Nóbrega de Araújo e o copiloto Leopoldo Barros Teixeira. O enterro ocorreu na quinta-feira (24) em Sorocaba (SP), restrito a familiares e amigos próximos.

Da gestão pública para a intimidade familiar

Em 2011, Rick assumiu a Secretaria Extraordinária de Promoção Cultural do Tocantins por convite do então governador Siqueira Campos. Adriana comandava a Secretaria de Educação, à qual a pasta da cultura estava vinculada. O que começou em agendas oficiais virou almoços em chácaras, visitas à casa dos pais do cantor em Monte do Carmo e encontros entre as duas famílias.

“Não era um aprendizado com o artista famoso, com o Rick dos palcos. Era com um tocantinense raiz, profundamente conhecedor e orgulhoso da sua terra”, resume Adriana. Ela considera a nomeação “visionária”: trazer um artista com projeção nacional para valorizar a cultura local usando a própria experiência.

O homem que coava café no copo de extrato

A simplicidade aparecia nos detalhes cotidianos. Adriana relembra ter visto Rick tomar café coado em um copo reaproveitado de extrato de tomate, na casa onde cresceu, cercado pela família. “Ele sabia conciliar de maneira muito bonita a vida que a projeção artística lhe proporcionou com a experiência permanente das suas origens. Nunca precisou abandonar uma para viver a outra.”

Essa naturalidade se estendia aos compromissos públicos. Em um evento do Dia das Mulheres, o cantor subiu ao palco para as servidoras da pasta — sem estrutura grandiosa, sem multidão. “Um artista daquela dimensão, de maneira simples e generosa, cantando para as servidoras. Aquilo dizia muito sobre a humildade dele.”

Presentes que não têm preço

No aniversário de 40 anos de Adriana, Rick fez um show particular para a família e amigos próximos. “Não era um grande evento. Era algo nosso, familiar. Quando penso nos meus 40 anos, não penso na festa que não consegui fazer. Penso no presente que a vida me deu no lugar dela.”

A amizade durou 12 anos, atravessando casamentos, nascimentos e a rotina de quem aprendeu a separar o personagem do ser humano. “Conheci um ser humano extremamente espiritualizado, um homem de muita fé e devoção. Conheci, sobretudo, um homem simples”, repete Adriana.

O acidente e as buscas

O helicóptero Bell 430 decolou de Porto Belo (SC) na manhã de segunda-feira com destino a São Joaquim, na Serra. A região estava sob alerta de tempestades do Inmet. A comunicação foi perdida no final da tarde. Buscas noturnas e pela manhã de terça (22) localizaram os destroços em área de montanha e mata fechada na região de Santa Bárbara, interior de Urubici. Não houve sobreviventes.

O que fica para quem acompanhou de longe

Rick nasceu em 5 de dezembro de 1966 em Monte do Carmo, região central do Tocantins. Deixa a esposa Geralda Carvalho e os filhos Mônica e Victor Henrique. O país conheceu o artista que vendeu milhões de discos com Renner. Poucos viram o gestor que aceitou servir seu estado natal, o amigo que coava café no quintal dos pais, o homem que cantava para servidoras num auditório vazio de estrelas — cheio apenas de humanidade.

Para observar: a investigação do Cenipa deve esclarecer as causas da queda nas próximas semanas. Enquanto isso, a história que Adriana conta lembra que por trás de todo ícone há uma pessoa comum — e que às vezes a maior grandeza está justamente em não parecer grande.