Justiça

Greve dos Correios: O veredito do TST que ninguém esperava…

Ministros do TST em sessão de julgamento da greve dos Correios no plenário do tribunal
Sessão do TST que decidiu pelo fim da greve dos Correios sem multa à categoria.

O Tribunal Superior do Trabalho (TST) decidiu, na quinta-feira (24), que a paralisação dos Correios não configura abuso de direito e determinou o retorno imediato às atividades nesta sexta (25). A decisão afasta a multa de R$ 100 mil pedida pela empresa, mas deixa no ar a continuidade do movimento grevista.

O julgamento, arrastado desde a segunda (21), expôs uma divisão profunda na corte. Entender os votos vencidos e vencedores é essencial para prever os próximos passos de uma negociação que ainda não acabou.

O placar e o que ele significa na prática

A maioria acompanhou a relatora, ministra Maria de Nazaré Medeiros Rocha. O placar final consolidou três pilares centrais para a categoria e para a empresa:

  • Não abusividade: A greve foi considerada legítima, rejeitando o pedido de ilegalidade dos Correios.
  • Compensação dos dias parados: Não haverá desconto salarial; as horas serão repostas em cronograma a definir.
  • Data-base mantida: O reajuste e as cláusulas sociais seguem atrelados a 1º de agosto de 2026.

O presidente do TST, ministro Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, selou o entendimento: “Declaro a não abusividade do movimento grevista e a compensação dos dias parados”.

O nó da saúde e a contribuição assistencial

Se a forma da greve foi resolvida, o fundo da questão permanece travado. O principal obstáculo para o acordo coletivo é o custeio do plano de saúde — que cobre funcionários da ativa, aposentados e dependentes.

Houve divergência também sobre a contribuição assistencial. O ministro Ives Gandra Martins Filho defendeu ampla liberdade de oposição ao pagamento, mas a relatora lembrou que o tema ainda aguarda pacificação no TST e no STF. A regra anterior, que distingue filiados de não filiados para fins de oposição, foi mantida por enquanto.

Por que a minoria votou pela abusividade?

Três ministros — Maria Cristina Peduzzi, Ives Gandra e Caputo Bastos — entenderam que houve descumprimento da liminar que exigia 80% do efetivo. Peduzzi citou bloqueios de acesso a agências como “flagrante descumprimento”.

Curiosamente, Ives Gandra e Peduzzi acabaram convergindo para a compensação dos dias (em vez do desconto), mantendo, porém, o registro de abusividade. Para a maioria, porém, “um ou outro interdito não quer dizer bloqueio efetivo”, nas palavras do presidente da corte.

Direitos sociais avançaram no voto vencedor

Além da questão econômica, o voto da relatora — seguido por Maurício Godinho, José Roberto Freire Pimenta e Alexandre Agra — incorporou cláusulas de proteção social. Foram aprovadas demandas por:

  • Igualdade salarial entre gêneros e raças;
  • Combate a assédio e racismo no ambiente de trabalho;
  • Ampliação de direitos ligados à licença-maternidade e saúde ocupacional.

Itens como vale-cultura e adicional de complexidade (bônus para lideranças) ficaram de fora por não terem correspondência na proposta patronal.

O que observar daqui para frente

A tendência, segundo lideranças sindicais, é de manutenção da greve até que a empresa apresente contraproposta concreta para o plano de saúde. O TST não impôs fim ao movimento; apenas retirou a ameaça jurídica da abusividade.

Para gestores de logística e e-commerce, o sinal é de instabilidade operacional nos próximos dias. A compensação das horas paradas será negociada localmente, o que pode alongar prazos de entrega mesmo após o retorno formal. Acompanhe a movimentação das assembleias estaduais: é nelas que a paralisação efetivamente termina — ou se estende.