O Tribunal Superior do Trabalho marcou para terça-feira (29), às 14h30, o julgamento do dissídio coletivo que pode por fim à paralisação dos empregados da Caixa Econômica Federal — em greve desde 10 de setembro. A decisão sai das mãos do ministro Maurício Godinho Delgado, relator do processo que tramita em segredo de Justiça.
Para quem tem conta, financiamento ou depende do banco no dia a dia, a data é mais do que um compromisso burocrático: define se as agências reabrem na quarta ou se o impasse se arrasta por mais semanas.
Por que a negociação travou de vez
Após 54 rodadas de conversa para a categoria bancária como um todo — que garantiram reajuste de 4,6%, 0,6% acima da inflação —, a Caixa e os sindicatos não fecharam os pontos específicos do banco público. Na quarta-feira (23), uma mediação do Ministério Público do Trabalho terminou sem acordo, e a instituição protocolou o pedido de dissídio alegando necessidade de “segurança jurídica e previsibilidade”.
O presidente do TST, ministro Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, antecipou a convocação durante a sessão que discutia a greve dos Correios, sinalizando urgência no caso.
O nó da disputa: Saúde Caixa e o salário real
O centro do conflito não é o reajuste salarial — já equiparado ao dos bancos privados —, mas o custeio do plano de saúde. A proposta final da Caixa mexe em alíquotas, tetos e coparticipações a partir de 2027. Veja os números:
- Teto de contribuição do grupo familiar (titular + dependentes diretos): sobe de 7% para 9% da remuneração-base.
- Contribuição do titular: passa de 3,5% para 3,7% da remuneração-base.
- Dependente direto: mensalidade salta de R$ 480 para R$ 560 (+16,7%).
- Dependentes indiretos (filhos 21 a 24 anos): R$ 660/mês.
- Filhos 24 a 27 anos e pais/mães: R$ 900/mês.
- Pronto-atendimento: coparticipação cai de R$ 150 para R$ 120 (ainda 60% acima dos R$ 75 atuais).
- Telemedicina: mantida isenção de coparticipação.
- 2026: sem reajuste nas mensalidades; déficit do plano assumido integralmente pela Caixa.
Na conta dos trabalhadores, mesmo com o reajuste de 4,6%, o aumento no custo do convênio consumiria todo o ganho real. Resultado: salário líquido estagnado.
O que funciona (e o que não funciona) durante a greve
Enquanto o julgamento não sai, a rede física segue majoritariamente fechada. A Caixa garante que todos os canais digitais e de autoatendimento operam normalmente. Para o cliente, a lista de alternativas é longa:
- Caixas eletrônicos (próprios e Banco24Horas)
- Aplicativos: Caixa, Caixa Tem, Cartões Caixa, Habitação Caixa, FGTS, DPVAT
- Internet banking e WhatsApp Caixa (0800-1040104)
- Lotéricas e Correspondentes Caixa Aqui
- Alô Caixa: 4004-0104 (capitais) / 0800-1040104 (demais)
Nas agências, cartazes dos sindicatos explicam a paralisação e orientam o público. Terceirizados costumam estar na porta para dar informações básicas.
Cenários para a terça-feira e o que observar depois
O TST pode julgar o mérito e impor condições, determinar nova mediação ou até declarar a greve abusiva — o que autorizaria descontos de dias parados e multas aos sindicatos. Historicamente, a corte busca composição, mas o segredo de Justiça impede saber qual tese predomina no relatório de Godinho Delgado.
Do lado da Caixa, a argumentação destaca os “avanços incorporados” e o compromisso com “solução equilibrada e sustentável”. Dos empregados, a leitura é de que a proposta transfere custo previdenciário para o bolso do funcionalismo sem contrapartida real.
O que monitorar nos próximos dias: (1) se a decisão sai na própria terça ou se há pedido de vista; (2) como ficam as cláusulas sociais não econômicas (como teletrabalho e segurança); (3) a reação dos sindicatos — manutenção ou suspensão da greve; (4) eventuais impactos no calendário de pagamento de benefícios sociais operados pelo banco.
Para o correntista, a recomendação prática permanece: use canais digitais para pagamentos, transferências e consultas. O desfecho judicial deve ditar o ritmo da reabertura das portas — e, indiretamente, o custo do crédito e do serviço público nos próximos meses.
