O candidato à Presidência Augusto Cury (Avante) desembarcou em Cuiabá com uma diagnóstico brutal: o agronegócio está sendo estrangulado pelo custo do dinheiro. Durante coletiva na Casa Cury nesta quinta-feira (24), ele expôs um abismo que poucos ousam quantificar.
Enquanto a rentabilidade no campo gira entre 5% e 7% ao ano, o financiamento bancário pode atingir 20%. A conta não fecha — e o resultado aparece nas estatísticas de saúde mental.
O efeito silencioso nas lavouras
Cury conectou dois mundos que costumam ser tratados separadamente: o balanço patrimonial e o consultório psiquiátrico. Segundo o candidato, agricultores apresentam o dobro de depressão e ansiedade da média populacional.
A explicação está na combinação tóxica de variáveis incontroláveis: clima, câmbio, preço de insumos e cotação de commodities. O produtor assume todos os riscos, mas paga juros de quem opera em ambiente estável.
O crédito subsidiado, quando existe, muitas vezes não chega a quem produz. Fica retido nos canais de distribuição, nas burocracias, nos intermediários.
Mato Grosso no centro da equação
Não foi por acaso a escolha do estado para o anúncio. Mato Grosso carrega sozinho uma fatia expressiva da produção nacional de grãos. Cury classificou o estado como “exemplo de responsabilidade e resiliência” que sustenta o desenvolvimento brasileiro “nas próprias costas”.
A proposta vai além da taxa de juros. O pacote inclui:
- Responsabilidade fiscal com redução real de impostos
- Logística estruturada para escoamento da safra
- Extensão das medidas ao Matopiba — Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia
Mas o agronegócio foi apenas a porta de entrada. A coletiva avançou para temas que afetam diretamente o cotidiano urbano e a segurança pública.
Segurança: integração ou retórica?
Cury propõe fusão operacional entre Polícia Federal, polícias militares, civis e guardas municipais. A novidade está no detalhe: guardas municipais receberiam treinamento padrão das forças estaduais e federais, com investimento em equipamentos e capacitação contínua.
O modelo tenta resolver o vácuo de coordenação que permite a criminalidade transitar entre jurisdições. Resta saber como a federação aceitaria a padronização.
O botão de pânico e o drone
Nos primeiros meses de 2026, Mato Grosso já registrava 38 feminicídios — contra 54 em todo 2025, segundo o Observatório Caliandra do MPMT. A resposta de Cury mistura tecnologia e prevenção: um aplicativo com alerta georreferenciado acionando a viatura mais próxima.
Se não houver policial disponível? Um drone com sirene seria despachado à localização da vítima. O candidato admite que o equipamento é apenas uma camada de um projeto mais amplo. “O mais importante não é só condenar. O mais importante é prevenir.”
Durante a mesma resposta, Cury ligou violência de gênero a desigualdades no mercado de trabalho e no acesso ao crédito — sugerindo que autonomia financeira é variável de proteção.
Bolsa Família e o fim da armadilha do benefício
Uma das propostas mais concretas atinge diretamente a transição da assistência para o emprego formal. Cury defende que beneficiários do Bolsa Família possam assinar carteira ou abrir microempresa sem perder o auxílio imediatamente.
A medida atacaria o desincentivo estrutural: hoje, muitos recusam vagas formais porque a renda bruta do emprego não compensa a perda do benefício mais os custos de transporte e alimentação.
Paralelamente, o BNDES seria dividido em dois na primeira semana de governo: um banco para grandes empresas, outro exclusivo para micro e pequenos empreendedores. A intenção declarada é democratizar o acesso a capital de longo prazo.
Telemedicina: a fila que não anda
Na saúde, a aposta é na escala. Cury promete disponibilizar telemedicina de alto nível em pediatria, pneumologia, gastroenterologia e cardiologia — especialidades que concentram as maiores esperas no SUS.
A meta: resolver 60% a 80% dos casos que hoje travam o sistema presencial. O ganho seria duplo: desafogar unidades físicas e reduzir o tempo entre a suspeita diagnóstica e o tratamento.
O que observar daqui para frente
As propostas formam um mosaico que tenta falar com o empresário do agro, o gestor público, a mãe de família e o microempreendedor ao mesmo tempo. A coerência está no eixo central: redução de custo de capital e remoção de barreiras burocráticas.
Para quem acompanha o cenário eleitoral, três pontos merecem monitoramento nas próximas semanas: a receptividade do setor bancário à ideia de juros agrícolas abaixo de dois dígitos, a viabilidade jurídica da cisão do BNDES sem passar pelo Congresso, e a capacidade de uma candidatura de partido nanico furar o bloqueio de tempo de TV e estrutura partidária.
O diagnóstico está posto. A execução — como sempre — é o abismo entre a promessa e a realidade.
