O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, confirmou nesta quinta-feira (24) que foi intimado pela Polícia Federal para depor como testemunha no inquérito que investiga o Banco Master. A oitiva está prevista para o início de outubro, mas a data exata não foi divulgada. A decisão coloca o chefe da autoridade monetária no centro de uma apuração que já alcança ex-dirigentes da autarquia e grandes nomes do mercado financeiro.
Quem mais foi chamado a depor
A lista de intimados pela PF não é curta. Além de Galípolo, foram convocados:
- Roberto Campos Neto, ex-presidente do BC
- André Esteves, controlador do BTG Pactual
- Aílton de Aquino, diretor de Fiscalização do BC
Todos prestarão esclarecimentos sobre a atuação de ex-gestores da autarquia suspeitos de favorecer o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master.
O núcleo da investigação: dois ex-diretores sob suspeita
O inquérito mira especificamente Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização, e Belline Santana, ex-chefe de Supervisão Bancária. Segundo a PF, ambos teriam repassado informações sensíveis sobre a fiscalização do regulador em benefício do Banco Master. A defesa dos dois nega qualquer irregularidade.
Paralelamente, a Controladoria-Geral da União (CGU) abriu em março um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) que pode resultar na expulsão dos servidores do quadro funcional do BC, caso a culpa seja comprovada.
Novos pagamentos expõem mais um elo
Mensagens extraídas do celular de Vorcaro revelam que o Banco Master fez pagamentos em 2025 à LR Consultoria, empresa de Leonardo Eyer Harris. O valor: R$ 120 mil. Leonardo é irmão de Ricardo Eyer Harris, chefe de gabinete do diretor de Regulação do BC, Gilneu Francisco Astolfi Vivan.
Ricardo afirmou ter comunicado a alta administração do BC sobre o contrato do irmão e negou qualquer interferência em decisões relacionadas ao Master. Galípolo defendeu a presunção de inocência e separou esse episódio dos demais:
“O caso dele é bastante distinto dos outros servidores do Banco Central.”
O presidente da autarquia disse não ter nada que desabone a conduta de Ricardo Harris no período e reforçou que os trâmites internos devem seguir seu curso.
Outro nome, outro contrato: R$ 3 milhões declarados
A investigação também alcança João André Calviño Marques Pereira, ex-chefe do departamento de Regulação do Sistema Financeiro (abril de 2018 a janeiro de 2024). O Banco Master declarou à Receita Federal ter pago R$ 3 milhões no ano passado à JGM Solutions, empresa de João André.
O ex-servidor pediu licença em março de 2024 e foi exonerado em junho de 2025. Segundo ele, os pagamentos ocorreram a partir de agosto de 2025, já fora do cargo público.
O que observar daqui para frente
O depoimento de Galípolo em outubro será um marco: pela primeira vez, um presidente do BC em exercício prestará contas à PF sobre um caso que envolve a integridade da fiscalização bancária. O desdobramento do PAD na CGU e o avanço do inquérito policial podem redesenhar a confiança do mercado na independência do regulador. Investidores e empresários devem monitorar:
- A data exata da oitiva de Galípolo e eventuais desdobramentos públicos
- O andamento do PAD contra os dois ex-diretores do BC
- Possíveis novas revelações a partir dos depoimentos de Campos Neto e André Esteves
O episódio testa a blindagem institucional do Banco Central e a capacidade de autoregulação do sistema financeiro brasileiro. O desfecho dirá se a autoridade monetária consegue manter a credibilidade necessária para conduzir a política econômica sem ruídos políticos ou judiciais.
