Economia

Como uma rede fatura R$ 180 mi vendendo best-sellers a R$ 15

Pilha de best-sellers com etiquetas de R$ 15 em loja temporária da Promolivros
Livros best-sellers a R$ 15 em ponto de venda temporário da rede Promolivros.

Uma rede de livrarias projeta faturar quase R$ 200 milhões este ano vendendo títulos a partir de R$ 15, enquanto o preço médio do mercado supera R$ 53. O modelo desafia a lógica tradicional do varejo livreiro e expõe uma fratura no setor: afinal, livro barato democratiza a leitura ou destrói a cadeia de valor?

À frente da Promolivros e da BoraLê, Samuel Honorato, 44 anos, construiu um império de lojas temporárias que somam entre 180 e 200 pontos simultâneos. A estratégia ignora shoppings de alto padrão e foca em centros de compra das classes C, D e E, além de feiras literárias massivas.

O fenômeno das pop-ups: 300 mil livros em dez dias

Na Bienal do Livro de São Paulo de 2024, a operação ocupou 740 metros quadrados e movimentou mais de R$ 4 milhões em dez dias. Foram cerca de 300 mil exemplares vendidos — volume que muitas livrarias físicas não atingem em um ano inteiro.

O segredo não está no aluguel barato. Honorato nega que receba benesses de shoppings: para operar 30 dias no Barra Shopping, no Rio, a empresa desembolsou aproximadamente R$ 100 mil. A vantagem está na rotação agressiva de estoque e na ocupação de vazios deixados por redes que fecharam, como Fnac e Saraiva.

Para a Bienal do Rio de 2027, a meta é expandir para mais de 800 metros quadrados. O custo do metro quadrado, se contratado até outubro de 2026, é de R$ 1.007. Honorato já é o segundo maior expositor do evento, atrás apenas do Grupo Ciranda Cultural.

De rescisão de R$ 40 mil a 12 mil livros no porta-malas

A origem do negócio remonta a 2014. Após passar pelas áreas comerciais do Grupo Novo Século e da editora Novo Conceito, Honorato usou sua indenização trabalhista para comprar um lote de 12 mil livros de uma grande rede que tratava aqueles volumes como “produto depreciado” — estoque que não conseguia devolver às editoras.

O pai, Edson Honorato, falecido em 2016, foi comprador da Siciliano (posteriormente adquirida pela Saraiva). A herança prática do pai ensinou o filho a navegar nas entranhas do mercado editorial brasileiro.

Por que o preço médio do Brasil é R$ 53,19 e o deles não passa de R$ 20

Dados do SNEL (Sindicato Nacional dos Editores de Livros) mostram o abismo. Enquanto o tíquete médio nacional beira R$ 53, nas redes de Honorato ele não ultrapassa R$ 20. A equação fecha pela aquisição de fundos de catálogo e tiragens excedentes que as editoras não conseguem girar.

  • Estoques parados: editoras com tiragens maiores que a demanda
  • Fundo de catálogo: títulos sem apelo de lançamento, mas com procura residual
  • Devoluções impossíveis: redes que faliram (Fnac, Saraiva) deixaram volumes sem destino

“Há muitos livros que as editoras já não conseguem um bom giro”, resume Honorato. O diálogo direto com as casas editoriais permite comprar a preços que viabilizam a revenda a R$ 15 sem prejuízo.

A polêmica dos descontos e a defesa do “formador de leitor”

O modelo ganhou holofotes após Alexandre Martins Fontes, presidente da Associação Nacional de Livrarias e dono da Livraria Martins Fontes, classificar a prática de descontos agressivos em feiras universitárias como uma “doença criada pela própria indústria”.

Honorato rebate com um argumento social: “Assim como o gibizinho da Turma da Mônica forma leitor, o meu negócio forma leitor porque atende àquela pessoa que ganha menos”. Ele acusa parte do mercado de tratar best-sellers como Harry Potter como itens de luxo, inviabilizando edições populares.

Além dos livros: franquias e 200 mil vendas por mês

O grupo não vive só de literatura. Honorato administra franquias das marcas Gendai, Milky Moo e Mundo dos Colecionáveis. O faturamento consolidado projetado para 2025 é de R$ 125 milhões, segundo dados internos — a meta de R$ 180 milhões citada no início refere-se ao desempenho anualizado atual.

A rotação é frenética: “Numa mesma noite a gente monta duas ou três operações e fecha alguma”, diz o empresário. O volume transacionado supera 200 mil vendas mensais, o que explica a ocorrência de problemas pontuais.

O ponto cego: notas fiscais e Reclame Aqui

Relatos no Reclame Aqui apontam ausência de notas fiscais em compras nas unidades. Embora o livro seja imune a tributos no Brasil, a legislação exige a emissão do documento para registrar a operação. Honorato admite falhas “pontuais” e afirma estar trocando o sistema das lojas para resolver a questão.

“Fazemos mais de 200 mil vendas no mês facilmente, um problema ou outro sempre acontece. Nossas empresas são sérias. Se não fosse, não teríamos mais de 180 lojas e seríamos o segundo maior expositor da Bienal”, defende-se.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão se o modelo é sustentável ou uma bolha de liquidação: a capacidade das editoras de manter o fluxo de fundos de catálogo sem canibalizar lançamentos; a tolerância dos shoppings à alta rotatividade de pop-ups em meio à vacância; e a regularização fiscal completa diante do volume de transações. Se Honorato resolver a emissão de notas sem perder agilidade, terá removido o principal argumento dos céticos. Caso contrário, o “formador de leitor” pode virar caso de fiscalização — e o preço baixo, no fim, sai caro.