A ASA, gestora de Alberto Safra, elevou o nível de risco de seus fundos nesta quarta-feira (23), ampliando posições em ações brasileiras e títulos prefixados. A justificativa é direta: as análises internas apontam probabilidade crescente de correção fiscal após a eleição presidencial, o que abriria espaço para queda de juros. Mas a casa não está sozinha nesse movimento.
O comitê de alocação decidiu subir em dois degraus a exposição a renda variável nos fundos que já carregam bolsa e, também em dois degraus, a fatia em prefixados nas carteiras conservadoras. A estratégia, porém, não nasceu hoje: vem sendo construída gradativamente desde outubro do ano passado.
O gatilho: probabilidade de alternância de poder
A leitura central do ASA é que o mercado precifica prêmios elevados demais nos ativos locais. Se a hipótese de mudança na política econômica se confirmar nas urnas, a assimetria — risco controlado versus potencial de alta — torna-se “bastante favorável”, segundo o comunicado.
Na prática, os fundos multimercados macro da casa estão montando compra de opções de Ibovespa. Isso permite capturar a valorização da bolsa limitando a perda ao prêmio pago, uma proteção vital num cenário de volatilidade eleitoral.
Como o ASA mexeu nas carteiras (na prática)
- Fundos com exposição a ações: alocação em renda variável Brasil subiu dois “passos”; redução simultânea em renda fixa e caixa.
- Carteiras conservadoras (sem bolsa): risco aumentado via ampliação de títulos prefixados, também em dois “passos”.
- Horizonte: médio e longo prazo, com aviso explícito de que o calendário eleitoral pode elevar a volatilidade no curtíssimo prazo.
Não é só o ASA: o movimento do “smart money”
A decisão ecoa movimentos semelhantes em outras casas de peso. O Verde, de Luís Stuhlberger, e a Ibiuna Investimentos já vinham relatando em cartas mensais o aumento de apostas na bolsa via mercado de opções. O objetivo declarado é capturar uma eventual mudança de rumo na política econômica nos próximos anos.
A Ibiuna, especificamente, afirmou estar posicionada “principalmente via opções para aproveitar uma eventual mudança de rumo”. A estrutura com derivativos permite alavancar o ganho potencial caso o cenário base se concretize, sem expor o patrimônio a uma queda brusca se o cenário não se materializar.
A leitura da Persevera: eleição como referendo
A Persevera Asset Management foi além nas projeções. Em carta divulgada na terça-feira (22), a gestora projeta vitória da oposição — representada pelo senador Flávio Bolsonaro — no segundo turno, salvo fatos novos de grande impacto.
O argumento central: a eleição funcionaria como um referendo sobre o atual governo. A rejeição ao presidente Lula é citada como indicador preditivo robusto desde 2014. Some-se a isso a erosão de votos no Nordeste: a região que deu 69% dos votos válidos ao petista em 2022 hoje aponta cerca de 65% nas simulações atuais.
Desde agosto, a Mar Asset já sustentava tese semelhante, na contramão do consenso de mercado na época.
O que observar daqui para frente
O consenso entre as grandes gestoras não garante acerto, mas sinaliza onde o capital sofisticado está se posicionando. O investidor deve monitorar três variáveis nas próximas semanas: a evolução das pesquisas eleitorais (especialmente no Nordeste), a reação da curva de juros reais a cada nova sondagem e a manutenção do fluxo estrangeiro na B3. A construção gradual de posições, adotada pelo ASA desde 2023, sugere que o jogo ainda está no primeiro tempo — e a volatilidade tende a ser a única certeza até outubro.
