O Goldman Sachs acaba de divulgar um relatório que mapeia o comportamento do dólar nos meses que antecedem as eleições presidenciais de 2026. A conclusão central é inquietante: o nível de apostas compradas no real hoje espelha exatamente o cenário de 2022. Mas a pergunta que fica é: o desfecho será o mesmo?
O carry trade voltou aos patamares de 2022 — e isso não é coincidência
Investidores estrangeiros mantêm posições compradas em real (a famosa operação de carry trade) em volumes semelhantes aos registrados às vésperas do pleito de 2022, além de 2006 e 2010. O motor por trás disso é claro: juros reais elevados no Brasil garantem retorno atrativo mesmo com o risco político no radar.
A diferença gritante aparece ao comparar com 2018. Naquela época, o juro real estava no piso histórico — o que tornava a aposta no real muito menos sedutora. Em 2014, o carry era ainda maior que o atual, mas a inflação corroía o ganho real.
O elefante na sala: déficit nominal acima de 9% do PIB
Os analistas do banco conectam os pontos: juros reais altos não são apenas um atrativo para o capital externo. Eles são sintoma e causa de um desequilíbrio fiscal estrutural.
- Déficit nominal: > 9% do PIB
- Déficit primário: ~0,7% do PIB (longe do superávit de 2% a 3% necessário para estabilizar a dívida)
- Juros reais: patamar elevado sustentando o carry
Essa dinâmica cria uma armadilha: o fluxo de dólares entra pela taxa de juros, mas a sustentabilidade fiscal segue deteriorada.
O que a história ensina sobre outubro eleitoral
O estudo disseca três ciclos recentes — 2014, 2018 e 2022 — e identifica um padrão: o primeiro dita o tom cambial, mas o segundo define a trajetória.
Em 2006 e 2010, as disputas não foram vistas como “momentos decisivos” para a política econômica. O dólar praticamente não se moveu. Já em 2014 e 2022, a polarização em torno do rumo das contas públicas gerou volatilidade real.
2022: dólar subiu 4,5% após o segundo turno
O resultado apertado e a composição de centro-direita do Congresso eleito fizeram o USD/BRL disparar na semana seguinte. O padrão? Quase idêntico a 2014, quando Dilma Rousseff venceu a reeleição e a moeda americana subiu na segunda-feira posterior.
Em 2018, a lógica inverteu: o real se fortaleceu após o primeiro turno e atingiu o pico na sexta-feira anterior ao segundo turno. A expectativa de reformas explicou o movimento.
Resultado das urnas importa menos que os primeiros atos do governo
A grande conclusão do Goldman: o desfecho eleitoral em si tem poder limitado para reverter tendências cambiais. O que move a moeda de forma duradoura são os sinais concretos de política econômica nas semanas seguintes.
Exemplos históricos:
- Fim de 2014: nomeação de ministros “ortodoxos” valorizou o real em novembro; mas 2015 trouxe estagflação, dólar global forte e commodities em queda — o real voltou a enfraquecer.
- Fim de 2018: foco girou para a reforma da Previdência em Congresso fragmentado; sinais de lentidão depreciaram o real ainda em novembro.
- Fim de 2022: risco de expansão de gastos públicos dominou a narrativa logo após a posse, apesar da realização de lucros inicial em posições compradas no real.
O que observar daqui para a frente
Para quem gere posições em câmbio ou precifica ativos brasileiros, três variáveis merecem monitoramento contínuo até outubro de 2026:
- Grau de polarização na política econômica entre os candidatos líderes nas pesquisas — quanto maior o abismo, maior a volatilidade pré-primeiro turno.
- Composição do Congresso eleito — a capacidade de aprovar ou bloquear ajustes fiscais dita o prêmio de risco pós-eleição.
- Primeiros anúncios de equipe econômica — sinais de ortodoxia ou expansão fiscal nos primeiros 30 dias tendem a superar o resultado das urnas na formação de preço.
O cenário externo — juros nos EUA, preço das commodities, apetite por risco global — reassume o protagonismo assim que a poeira eleitoral baixa. Mas, até lá, o real continuará refém da narrativa fiscal doméstica.
