Na estepe da Mongólia Interior, onde antes só havia batatas, nascem agora os data centers que alimentam a ambição chinesa de dominar 90% da IA global até 2030. Enquanto Trump e Xi discutem regras em Washington, a construção no chão avança em fases contínuas. O que está em jogo vai muito além de servidores.
A infraestrutura invisível por trás do poder
Ulanqab virou o símbolo físico da corrida. Centenas de operários erguem blocos retangulares para Huawei, ByteDance e DeepSeek em províncias escassamente povoadas — Ningxia, Gansu e Guizhou completam o mapa.
A escolha não é aleatória: terra barata, clima frio e vento constante reduzem a conta de refrigeração e energia. A meta oficial exige que a maior parte dessa rede rode com renováveis até 2030, embora a matriz nacional ainda dependa pesado de carvão.
Dados-chave da expansão:
- Centenas de data centers em construção simultânea
- Foco em regiões áridas com alta geração eólica/solar
- Meta: IA em 90% da indústria e sociedade até 2030
Talento: o êxodo reverso que muda o jogo
O vetor humano pode ser mais decisivo que o silício. Restrições de visto nos EUA e tensões geopolíticas devolveram pesquisadores como Jack Zhang, formado em Yale e Cambridge, para laboratórios chineses.
O país forma cerca de 5 milhões de graduados em STEM por ano — dez vezes o volume americano. Com mais profissionais ficando, o ecossistema de inovação adensa-se: IA aplicada a fusão nuclear, novos materiais e descoberta de fármacos já sai das universidades para a indústria.
Mas o professor Liu Jun, de Tsinghua, alerta: o sistema ainda premia conformidade em vez de questionamento. “Difícil mudar a cultura”, resume.
Código aberto vs. caixa-preta: a estratégia de Pequim
Sem acesso fácil a chips de ponta, a China apostou em modelos abertos, mais baratos e adaptáveis. A lógica: compartilhar acelera a iteração e contorna o bloqueio de hardware.
Isso coloca Pequim em rota de colisão com OpenAI e Anthropic, que defendem modelos fechados. Dario Amodei, CEO da Anthropic, chegou a pedir manutenção do embargo de chips, alegando “riscos graves” se a China liderar. O Global Times rebateu chamando de “roteiro de Guerra Fria”.
O custo oculto: água, carvão e vilarejos movidos
A velocidade tem conta. No deserto interior, a água para resfriar servidores compete com a agricultura. Aldeias inteiras foram realocadas; números e indenizações são tema sensível, pouco debatido abertamente.
“Estes big data não têm nada a ver conosco”, diz um morador anônimo. Poucos locais conseguiram emprego nos centros. Do outro lado, o sobrenome Zhang comemora: filhos empregados, orgulho de ver o país “na vanguarda”.
Dois mundos: o engenheiro de Xangai e o pastor de ovelhas
Enquanto Dang Ronghao, 27 anos, colabora com pesquisadores globais de sua base em Xangai, um pastor na Mongólia Interior paga 40 yuans (US$ 6) por um plano de dados precário. “Não mudou nada para mim”, resume, com a tela do celular quebrada.
Esse abismo expõe o desafio real: a IA resolve o envelhecimento da força de trabalho nas fábricas, mas ignora quem sequer tem internet estável. A censura dificulta medir a oposição, mas a ansiedade com empregos existe.
O que observar daqui para frente
A cúpula em Washington testará se há espaço para regulação conjunta — cenário improvável diante do ritmo em Ulanqab. Para investidores e executivos, três variáveis mandam no curto prazo: a eficácia dos modelos abertos sem chips topo de linha, a capacidade de Pequim converter 5 milhões de formandos/ano em produtividade real e a gestão social da transição nas regiões esquecidas. Quem monitorar só os laboratórios perde a metade da partida.
