Todos os principais presidenciáveis querem transformar o Brasil em potência de processamento de dados, mas especialistas alertam: a conta de luz e água pode ficar para o contribuinte. O consenso rara vez visto em ano eleitoral esconde divergências perigosas sobre quem paga a infraestrutura e que soberania realmente se constrói.
Em agosto, Lula inaugurou supercomputador de R$ 1 bilhão no Rio Grande do Norte. Paralelamente, Flávio Bolsonaro, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos apresentam variações do mesmo tema: incentivos fiscais, energia barata e zonas especiais para atrair galpões de servidores.
O consenso que não é consenso
O ponto em comum: o Brasil precisa de mais capacidade computacional para treinar e rodar inteligência artificial. A divergência começa no papel do Estado. O plano petista condiciona benefícios a eficiência energética, fontes renováveis e contrapartidas de conteúdo local. Caiado exige qualificação profissional e reserva de capacidade para universidades e empresas nacionais.
Já Bolsonaro e Zema apostam na desregulamentação tributária e na matriz elétrica limpa como chamariz para capital estrangeiro. Renan Santos propõe zonas econômicas especiais no Nordeste com regras próprias de energia, impostos e regulação — um modelo de “exportador de capacidade computacional”.
Soberania digital: o conceito que ninguém define igual
Para Luca Belli, da FGV, instalar data centers não garante soberania tecnológica. “Você pode virar quintal de data centers alheios, que absorvem seus recursos naturais e energéticos”, resume. A alternativa ecossistêmica exigiria parcerias com universidades, laboratórios e startups para formar pesquisadores e desenvolver tecnologia própria.
O diretor do Idec, Igor Rodrigues Britto, faz a distinção crucial: data centers para armazenar dados brasileiros (SUS, bancos públicos) versus estruturas para treinar IAs generativas de big techs estrangeiras. “Eles não vão servir para armazenar dados do SUS”, afirma sobre os projetos atuais.
A conta ambiental que os planos ignoram
- Funcionamento 24/7: servidores ligados ininterruptamente
- Refrigeração intensiva: consumo massivo de água
- Ruído constante: impacto em comunidades vizinhas
- Infraestrutura elétrica: quem paga linhas de transmissão?
Em Caucaia (CE), o data center associado ao TikTok já gera reclamações. No Rio Grande do Sul, o complexo da Scala prevê 5 GW de capacidade — sigilo no licenciamento esconde origem da energia, linhas necessárias e quem arca com os custos, segundo Felipe Silva, do Lapin.
Geopolítica: o Brasil como país-ponte
Enquanto EUA lideram a Pax Silica (segurança de cadeias de suprimento) e China articula a Waico (cooperação técnica e governança), o Itamaraty evita alinhamento automático. A ministra Luciana Santos admitiu “incertezas e riscos”: Washington ameaça cortar fornecimento a quem negociar áreas críticas com Pequim.
Belli vê saída na diversificação: “Não dá para ir da dependência total para independência da noite para o dia. Você precisa ter a possibilidade de trocar de sistema sem ficar preso”.
Redata: o incentivo que já virou lei antes da eleição
O Senado aprovou em setembro o regime especial de tributação para data centers. Estimativa de renúncia: R$ 5,2 bilhões só em 2026. Contrapartidas incluem energia renovável, 10% de capacidade para uso nacional e indicadores de eficiência hídrica.
Críticos apontam falhas: manobra regimental abriu brecha para gás natural e energia nuclear. “Concede bilhões a grandes corporações estrangeiras sem salvaguardas reais”, classifica Silva.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão se a aposta vira desenvolvimento ou dependência: (1) clareza nos editais sobre tipo de data center atraído; (2) transparência no licenciamento energético e hídrico; (3) mecanismos efetivos de transferência tecnológica e formação de mão de obra especializada. Sem isso, o Brasil corre risco de sediar a infraestrutura alheia pagando a conta ambiental — e ficando sem a propriedade intelectual.
