O barril tipo Brent, referência global, furou o piso dos US$ 100 nesta terça-feira (22) e tocou US$ 97,44 — o menor nível em duas semanas. A queda de quase 3% não veio de relatórios de estoque, mas de dois movimentos diplomáticos simultâneos no Oriente Médio que podem destravar a oferta global nos próximos dias.
Até a manhã de segunda-feira, o cenário era de aperto. Em poucas horas, a narrativa inverteu. O que está por trás da virada e até onde o preço pode cair?
Dois sinais geopolíticos viram o jogo em poucas horas
A primeira pista veio do Irã. Uma autoridade sênior disse à agência Kyodo News que o Estreito de Hormuz, bloqueado desde 28 de fevereiro, pode ter a navegação liberada em até sete dias. A condição: gestos iniciais de Washington para reduzir a pressão militar.
Quase no mesmo instante, Riad acenou com a reativação do oleoduto Leste-Oeste. A estrutura, que corta a Arábia Saudita em direção ao Mar Vermelho, serve como rota alternativa justamente para contornar Hormuz. Com capacidade nominal de 7 milhões de barris por dia, seu retorno aliviaria o gargalo logístico criado pelo fechamento do estreito — por onde escoam 20% do petróleo e gás do planeta.
O que os números mostram agora
A reação foi imediata. Por volta das 7h30 (horário de Brasília), o Brent caía 2,89%. O WTI, referência americana, acompanhou o movimento e era negociado a US$ 90,42, recuo de 2,11%.
- Brent: US$ 97,44 (-2,89%) — menor valor desde 8 de setembro
- WTI: US$ 90,42 (-2,11%)
- Hormuz fechado desde: 28 de fevereiro
- Capacidade do oleoduto Leste-Oeste: ~7 milhões bpd
Na véspera, o Brent chegou a tocar US$ 98,98 intradiário, mas fechou acima dos US$ 100. A quebra do suporte psicológico dos três dígitos nesta terça sinaliza que o mercado precifica, ao menos parcialmente, a volta de volumes significativos.
A matemática do oleoduto saudita
Nem todo o volume teórico do duto chega ao mercado internacional. June Goh, analista da Sparta Commodities, desenha dois cenários:
- 25% da capacidade (1,75 mi bpd): volume absorvido pelas refinarias sauditas na costa oeste — impacto nulo na exportação líquida.
- 40% da capacidade (2,8 mi bpd): injetaria cerca de 1 milhão de barris/dia adicionais no mercado global.
Dados da Kpler mostram que a Arábia Saudita já redirecionou o fluxo forçado pelo bloqueio. Os embarques no porto de Juaymah, no Golfo Pérsico, quintuplicaram em relação a agosto. Em 20 de setembro, todos os berços do terminal estavam ocupados.
“A interrupção do oleoduto Leste-Oeste alterou completamente a geografia das exportações sauditas em duas semanas”, resumem os analistas da Kpler.
O risco que permanece no radar
A euforia com a oferta esbarra em uma frente de instabilidade ao sul. Os houthis, grupo iemenita alinhado a Teerã, acusam Riad de atacar instalações em Mocha, porto estratégico para escoamento. O confronto na região dura duas semanas e já deslocou quase 130 mil pessoas em sete províncias iemenitas, segundo a OIM.
O G7 pediu o fim dos ataques transfronteiriços contra a Arábia Saudita. Enquanto a diplomacia tenta reabrir rotas no norte (Hormuz) e no oeste (Mar Vermelho), o sul segue como variável de risco não precificada.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam os próximos passos do preço: a concretização do acordo EUA-Irã para Hormuz, a taxa real de utilização do duto Leste-Oeste e a escalada (ou contenção) no Iêmen. Se os 40% de capacidade do oleoduto se confirmarem e Hormuz reabrir na janela de sete dias, o mercado entra em superoferta relativa no curto prazo — o que projeta o Brent para a banda dos US$ 90 a US$ 95. Caso qualquer uma das frentes trave, o piso dos US$ 100 volta a atuar como ímã.
