A Toyota retoma nesta terça-feira (22) a fundição de motores em Porto Feliz (SP), exatamente um ano após uma microexplosão atmosférica arrasar a unidade. A operação volta em um galpão que representa apenas um sexto da área total, mas com colunas metálicas projetadas para resistir a eventos climáticos extremos.
O temporal de 22 de setembro de 2024 durou minutos, mas o estrago parou a produção em Sorocaba e adiou o lançamento do Yaris Cross. Como a montadora ergueu uma linha alternativa em semanas e planeja o futuro diante de um seguro que mal cobriu o piso?
Três minutos entre a sirene e o desabamento
Às 13h28, a energia caiu. O protocolo de segurança levou os funcionários para áreas protegidas. Três minutos depois, o telhado desabou exatamente sobre a linha de montagem onde estariam concentrados.
Não houve mortes, apenas ferimentos leves. Gilberto Paulino Junior, diretor industrial, ouviu os gritos pelo telefone. Às 18h do mesmo dia, a equipe já cobria equipamentos expostos à chuva, sem saber por onde começar a reconstrução.
O efeito dominó em Sorocaba e a solução “copy/paste”
Sem blocos e cabeçotes de alumínio, a fábrica de veículos vizinha parou. O Yaris Cross, previsto para outubro, só chegou ao mercado meses depois. A montagem em Sorocaba voltou em 3 de novembro, restrita aos híbridos Corolla — cujos motores vinham do Japão e da Indonésia.
A resposta veio no condomínio DVR, a 11 km dali. Em um galpão vazio, a Toyota replicou a lógica da fundição em tempo recorde:
- Pisos reforçados para suportar robôs pesados;
- Instalação elétrica completa do zero;
- Desvio de colunas estruturais no layout.
“Não foi um simples copia e cola”, resume Paulino. Em 26 de janeiro, o primeiro motor 1.5 híbrido flex saía da linha provisória. Desde então, 42 mil unidades foram produzidas no espaço apertado, desenhado sob a filosofia Kanban: estações coladas às prateleiras para eliminar deslocamentos desnecessários.
O que volta agora — e o que fica para 2028
A fundição original reabre com 150 funcionários dedicados à etapa que não coube no DVR: a fusão do alumínio para blocos 1.5 (Yaris Cross) e 2.0 (Corolla). Os moldes passaram o último ano no Japão.
A nova estrutura entrega 45% mais resistência, mas a obra está apenas no início. Dos 830 trabalhadores totais da unidade, parte permanece no galpão provisório e outra foi remanejada para Sorocaba. Não houve demissões. A previsão para conclusão total é 2028.
Clima, seguro e a conta que não fecha
O episódio forçou a criação de um comitê interno para monitorar El Niño e fenômenos extremos. Todo o projeto de reconstrução agora prevê novos vendavais como cenário base, não exceção.
No financeiro, a apólice de seguros não cobriu lucros cessantes e mal pagou o piso da fábrica antiga. A Toyota não divulga o valor total investido na recuperação, mas admite que o bolso da matriz absorveu a diferença.
O que observar daqui para frente
A retomada parcial alivia a dependência de importação de motores híbridos, mas a capacidade total segue travada até 2028. Para o mercado, o termômetro será a regularidade do Yaris Cross e a cadência de entrega do Corolla híbrido flex. Se chover forte de novo em Porto Feliz, pela primeira vez a estrutura estará pronta para não ceder.
