O Itaú Unibanco acaba de entrar no capital da Simile, startup americana avaliada em US$ 2 bilhões que cria “gêmeos digitais” de mercados inteiros para simular decisões antes que elas aconteçam. O movimento sinaliza uma mudança radical na forma como o maior banco privado do Brasil pretende lançar produtos nos próximos anos. Mas por que uma instituição centenária precisa de uma tecnologia que promete eliminar o chute no escuro?
A resposta passa pela velocidade. Em um cenário onde errar o lançamento de um app ou uma linha de crédito custa milhões em marketing e reputação, a capacidade de testar milhares de variáveis em segundos deixa de ser diferencial para virar sobrevivência. O aporte, feito via Itaú Ventures, insere o banco em uma rodada Série B estendida de US$ 200 milhões, liderada pela gestora Greenoaks.
O que a Simile faz de tão diferente?
Diferente de modelos generativos tradicionais — que criam texto ou código —, a tecnologia da Simile foca em simulação comportamental. A plataforma modela como pessoas, empresas e reguladores reagem a estímulos específicos: mudança de juros, novo design de aplicativo, entrada de concorrente ou choque macroeconômico.
Pense nisso como um “flight simulator” para estratégia de negócio. Antes de colocar um produto na rua, o banco roda cenários sintéticos que replicam a complexidade do mundo real, identificando pontos de falha e adoção com precisão cirúrgica.
- Valuation da rodada: US$ 2 bilhões (julho/2024).
- Líderes do investimento: Greenoaks, Index, Hanabi, Bain Capital Ventures.
- Outros participantes: A*, Factory, Definition, CVS Health Ventures.
- Papel do Itaú: Primeiro cliente na América Latina e cocriador de casos de uso.
Da teoria à prática: o banco como laboratório
A parceria não nasceu ontem. O Itaú atua como cliente e “cocriador” desde os estágios iniciais da startup, fundada em 2019. Isso significa que a tecnologia já roda dentro de casa, testando aplicações em áreas que vão desde crédito e prevenção a fraude até experiência do usuário em canais digitais.
Segundo Carlos Eduardo Mazzei, CTO do Itaú Unibanco, a abordagem da Simile complementa a agenda de IA do banco ao permitir o desenvolvimento de experiências “cada vez mais relevantes”. A tradução prática: menos pilotos que falham, mais lançamentos que escalam.
O xadrez do Corporate Venture Capital
O movimento encaixa-se na tese do Itaú Ventures, braço de CVC do banco criado em 2019. O foco não é apenas retorno financeiro, mas acesso antecipado a tecnologias que resolvem dores internas — infraestrutura, cibersegurança, IA aplicada e serviços financeiros.
Investir na Simile cumpre dois objetivos simultâneos: garante assento na mesa onde a tecnologia é definida e blinda o banco contra a obsolescência de seus modelos de decisão atuais. É uma aposta na “infraestrutura de decisão” do futuro.
O que observar daqui para frente
A integração profunda entre um incumbent do porte do Itaú e uma deep tech de simulação deve ditar o ritmo da inovação no varejo bancário brasileiro nos próximos 24 meses. O mercado deve ficar atento a dois vetores: a velocidade de lançamento de novos produtos hiperpersonalizados e a eventual abertura dessa tecnologia para o ecossistema de parceiros e fintechs do banco. Quem souber ler os sinais dessa simulação ganha tempo; quem ignorar, corre o risco de testar o erro no mundo real.
