Economia

Morre aos 97 o bilionário mais velho do Brasil: o legado silencioso por trás da Coca-Cola e da Kaiser no Sul

Retrato de João Jacob Vontobel, fundador da Vonpar e cofundador da Kaiser, bilionário mais velho do Brasil
João Jacob Vontobel, falecido aos 97 anos, deixou legado bilionário no setor de bebidas no Sul do Brasil.

João Jacob Vontobel morreu aos 97 anos no sábado (19), em Porto Alegre, deixando uma fortuna estimada em R$ 3 bilhões e um império que moldou o consumo de bebidas no Sul do país. O fundador da Vonpar e cofundador da Cervejaria Kaiser era, até então, o bilionário mais longevo do ranking da Forbes Brasil. Mas o que acontece com o conglomerado que ele construiu tijolo a tijolo nas últimas sete décadas?

A cerimônia de despedida está marcada para terça-feira (22), das 14h às 17h, no Memorial Angelus, na capital gaúcha. A cremação ocorrerá em momento separado, restrito à família. Vontobel deixa a esposa Elone Maria Schneider, três filhos e seis netos — herdeiros diretos de um portfólio que ainda inclui Neugebauer, MuMu e Wallerius.

Do interior de Ijuí ao controle da Coca-Cola no Sul

Nascido em 14 de março de 1929, Vontobel iniciou a vida empresarial aos 19 anos, em 1948. O ponto de inflexão veio em 1963, quando assumiu a operação da The Coca-Cola Company no Rio Grande do Sul. A partir dali, a reorganização societária deu origem à Vonpar, que se tornaria a principal engarrafadora da marca no Sul do Brasil.

Sob sua gestão, a empresa não se limitou ao refrigerante. A Vonpar consolidou a produção e distribuição de Heineken e Kaiser nos mercados gaúcho e catarinense, criando uma malha logística que ainda hoje sustenta a capilaridade dessas marcas na região. Em 1988, foi eleito Industrial do Ano do Rio Grande do Sul — reconhecimento que, à época, sinalizava a transição de empresário regional para player nacional.

O embate corporativo e a venda para a Femsa

A trajetória não foi linear. A expansão agressiva da Vonpar gerou atritos com a própria Coca-Cola Company, culminando na venda da operação de refrigerantes para a mexicana Femsa — maior engarrafadora do sistema Coca-Cola no mundo. O movimento, embora controverso entre analistas de mercado, capitalizou o ativo no seu pico de valorização e liberou caixa para a família diversificar em alimentos.

Foi nessa esteira que a Neugebauer, marca de chocolates com mais de cem anos de história, passou a integrar o portfólio. Vontobel manteve o hábito de percorrer a fábrica mesmo após se afastar da gestão diária, sinalizando aos gestores que a cultura de chão de fábrica não era retórica.

O lado que o mercado financeiro ignora

Fora dos balanços, Vontobel idealizou o Prato Popular: refeições completas a R$ 1 para pessoas de baixa renda. O projeto mobilizou outras empresas, ganhou escala e foi replicado em outros estados. A iniciativa não entrou em demonstrativos de resultado, mas construiu capital social que, em momentos de crise regulatória ou reputacional, funciona como ativo intangível.

  • Fortuna estimada (Forbes 2026): R$ 3 bilhões
  • Posição no ranking de longevidade: 1º lugar (empatado em idade com Daniel Miguel Klabin, 97 anos)
  • Principais ativos remanescentes da família: Neugebauer, MuMu, Wallerius
  • Marcas que passaram pela Vonpar: Coca-Cola, Heineken, Kaiser, Grapette

O que observar daqui para frente

A sucessão já está em curso, mas o teste real virá com a gestão de portfólio pulverizado: chocolates, bebidas premium, marcas de massa e derivados. A capacidade de manter sinergias logísticas sem a espinha dorsal da distribuição de Coca-Cola — vendida à Femsa — definirá se o conglomerado segue como potência regional ou fragmenta-se em ativos isolados. O mercado acompanha, discreto, os próximos movimentos dos herdeiros.