Economia

Você não vai acreditar: 142 usinas solares abandonadas no Nordeste…

Fileiras de painéis solares abandonados no Nordeste brasileiro sob céu azul
Usinas solares canceladas pela Aneel mostram contraste com crescimento da geração distribuída

Empresas desistiram de 142 projetos de geração solar centralizada no Nordeste nos últimos dois anos, segundo dados da Aneel. O movimento ocorre justamente quando a geração distribuída — painéis em telhados de residências e comércios — cresce em ritmo acelerado. O que explica essa contradição aparente?

O que os números revelam sobre o setor

Dos 142 empreendimentos descartados, 127 tiveram a outorga cancelada pela agência reguladora por não cumprirem prazos de implantação. Os demais foram devolvidos voluntariamente pelos desenvolvedores. Juntos, somariam mais de 3,GW de capacidade instalada — energia suficiente para abastecer cerca de 1,5 milhão de residências.

O recorte temporal é revelador: a maioria dos cancelamentos concentra-se em 2023 e 2024. No mesmo período, a potência instalada em geração distribuída saltou de 23 GW para mais de 30 GW em todo o país, com o Nordeste respondendo por fatia expressiva desse avanço.

Impacto direto para investidores e empresários

Para quem aporta capital em geração centralizada, o sinal é claro: o modelo de grandes parques solares conectados à rede de transmissão enfrenta gargalos que não existiam há três anos. Curtailment (corte de geração por excesso de oferta), filas de acesso à rede e incerteza regulatória sobre a Lei 14.300/2022 elevaram o risco dos projetos.

Já players da cadeia de geração distribuída — integradores, fabricantes de inversores, fundos de financiamento — veem o vácuo deixado pelas usinas de grande porte como oportunidade. A demanda por sistemas de telhado segue aquecida, impulsionada por tarifas de energia elevadas e linhas de crédito específicas.

Por que o Nordeste lidera esse movimento

A região concentra a melhor irradiação solar do país e recebeu a maior parte dos empreendimentos outorgados nos leilões de 2019 a 2021. No entanto, três fatores combinados tornaram muitos projetos inviáveis:

  • Restrição de escoamento: a expansão da transmissão não acompanhou a entrada de novas usinas, gerando cortes frequentes de geração.
  • Preço de liquidação (PLD) deprimido: horários de pico solar coincidem com PLD mínimo, reduzindo receita no mercado de curto prazo.
  • Competição da geração distribuída: o consumidor final passou a gerar sua própria energia, diminuindo a demanda por contratos de compra de energia (PPAs) de grandes usinas.

Cenários para os próximos meses

A Aneel deve revisar as regras de acesso à rede ainda no primeiro semestre, o que pode reabrir janela para projetos parados. Paralelamente, discute-se a criação de mecanismos de capacidade e armazenamento obrigatório para novas outorgas — medida que encareceria usinas solares puras, mas daria previsibilidade ao investidor.

Do lado da geração distribuída, a tendência é de continuidade do crescimento, embora em ritmo mais moderado. A revisão dos benefícios tarifários prevista para 2029 começa a entrar no radar de planejamento de fundos e integradores.

O que observar daqui para frente

Empresários do setor devem monitorar três variáveis decisivas: o leilão de transmissão programado para junho, a definição sobre armazenamento em novos empreendimentos e a evolução do PLD nos horários solares. Para quem atua na ponta do consumo, a janela de financiamento atrativo para sistemas de telhado permanece aberta — mas a compressão de margens na cadeia de equipamentos sugere que a velocidade de execução será diferencial competitivo nos próximos trimestres.