Maria Ressa, vencedora do Nobel da Paz em 2021, afirma que a inteligência artificial está prestes a retirar a autonomia humana se governos não aprovarem leis de contenção imediatamente. A jornalista classifica a ausência de regulação como uma falha de segurança pública, não um debate sobre liberdade de expressão. O aviso parte de quem lidera o painel científico da ONU responsável por mapear os impactos globais da tecnologia.
As três ondas que já nos atingiram
Ressa divide a evolução da IA em três fases distintas, todas já em curso. A primeira foram as redes sociais capturando a atenção, polarizando sociedades e isolando indivíduos. A segunda, mais invasiva, “hackeou nossa biologia” via chatbots que simulam intimidade para manipular comportamentos.
A terceira onda — a que ela chama de “agência” — é a mais perigosa. Modelos agentivos e multiagentivos não apenas imitam humanos; eles agem por nós. Decidem, compram, negociam e executam tarefas sem supervisão direta, transferindo o controle da vida cotidiana para algoritmos opacos.
Por que o argumento da “corrida com a China” não cola
Críticos como Donald Trump rejeitam regulações temendo perder a disputa tecnológica para Pequim. Ressa descarta a tese como “boa manobra de relações públicas”. Ela aponta que a própria China impõe mais salvaguardas aos seus cidadãos do que o Vale do Silício impõe ao resto do mundo: a versão chinesa do TikTok, por exemplo, possui restrições etárias rígidas inexistentes no Ocidente.
O primeiro passo: responsabilizar quem lucra com o dano
Antes de frear o desenvolvimento, é preciso cobrar a conta do passado. Ressa saúda processos nos EUA que forçaram a Meta a pagar até US$ 18 bilhões (cerca de R$ 92,7 bi) na próxima década e a impor limites estritos ao uso de Facebook e Instagram por adolescentes. Para ela, a responsabilidade civil das big techs é o gatilho necessário para mudar incentivos internos.
- União Europeia: pioneira em legislação abrangente (AI Act).
- Austrália: lidera movimento por limites de idade em redes sociais.
- EUA: avanço via litígios estaduais e federais contra práticas viciantes.
A falha que leis de idade não resolvem
Medidas que protegem apenas menores ignoram a “falha fundamental”: adultos também são viciados e manipulados politicamente em escala global. “Sabemos que isso é prejudicial, então deveriam remover os recursos que causam dependência, não só para adolescentes, mas para todos nós”, defende Ressa. A solução exige redesenhar a arquitetura dos produtos, não apenas cercar faixas etárias.
Infraestrutura pública digital: o contra-ataque viável
Ressa propõe a criação de plataformas de comunicação geridas por grupos de interesse público, fora do controle corporativo — equivalentes digitais a parques urbanos. O Rappler Communities, lançado em 2023, usa o protocolo aberto e descentralizado Matrix para conectar redações e leitores em conversas seguras, sem algoritmos de engajamento forçado.
O modelo já expandiu para outros veículos filipinos e avança pelo Sudeste Asiático. A ideia é simples: ambientes onde as pessoas se sintam seguras para falar, ouvir e praticar a democracia sem serem produto.
O que observar daqui para frente
O próximo marco regulatório global deve surgir da pressão conjunta entre litígios de responsabilidade civil, legislações soberanas (como o AI Act europeu) e a construção de alternativas técnicas descentralizadas. Para executivos e investidores, o sinal é claro: o modelo “mova-se rápido e quebre coisas” entrou em rota de colisão com a lei e a biologia humana. Acompanhe os desdobramentos das ações contra a Meta nos EUA e a implementação do AI Act na Europa; eles ditarão o ritmo de adaptação obrigatória do setor nos próximos 18 meses.
