Todos os 225 maiores CEOs do Brasil agora têm perfil ativo no LinkedIn. Juntos, publicaram 8 mil vezes em um ano. O número impressiona, mas esconde um padrão que revela muito sobre como a alta gestão nacional se comunica — e, principalmente, sobre o que ela silencia.
Em 2022, menos da metade dos diretores-executivos estava na rede. A virada foi radical. O que não mudou foi a disposição de assumir riscos no discurso.
O estudo por trás dos números
A pesquisa é da FGV-EAESP em parceria com a Elementar Comunicação. A amostra cobre grandes corporações, unicórnios e instituições financeiras. A metodologia Delphi — consulta anônima a headhunters e diretores de RH — definiu quais líderes de fato movem agendas de mercado.
Para Lilian Carvalho, professora da FGV que liderou o trabalho, a inclusão de setores nativamente digitais explica parte do salto. “Bancos e startups de alto crescimento puxaram a média para cima”, resume.
O vocabulário da “LinkeDisney”
Leandro Herculano, diretor editorial da Elementar, cunhou o termo que resume o fenômeno: LinkeDisney. Um parque temático onde tudo é conquista, inovação e futuro — e nada é conflito.
Os dados confirmam. A palavra “inovação” aparece 2.469 vezes. “Futuro”, “saúde”, “liderança” e “compromisso” completam o topo. Enquanto isso, “sustentabilidade” mal chega à 20ª posição.
- ESG: presente em setores sob pressão regulatória (agronegócio, papel e celulose)
- Bancos, varejo e tech: praticamente ignoram o tema
- Macroeconomia e política: ausentes do radar
“O executivo brasileiro vive numa bolha de otimismo. Lá fora, o CEO é cobrado a se posicionar sobre megatendências. Aqui, foge de atrito”, analisa Herculano.
Quem lidera o ranking de engajamento
Diego Barreto (iFood) e Roberto Sallouti (BTG Pactual) travam disputa acirrada: 184 mil contra 183 mil interações no ano. A pauta de transformação digital impulsiona Barreto. Sallouti capitaliza a autoridade do banco de investimentos.
No Top 10 aparecem ainda Milton Maluhy Filho (Itaú Unibanco) e Marcelo Noronha (Bradesco). Este último gera média de 4 mil interações por postagem — a maior eficiência da lista.
Mulheres publicam menos, mas impactam mais
São 17 mulheres entre 225 nomes: 7,5% da amostra. A disparidade salta aos olhos. O contraponto está na performance: elas publicam em média 44 vezes ao ano (contra 36 da base geral) e geram impacto bruto superior.
Ana Sanches (Anglo American) é a única no Top 10 geral. Magda Chambriard (Petrobras), Tarciana Medeiros (Banco do Brasil) e Jeane Tsutsui (Grupo Fleury) figuram em posições de alto engajamento.
A reputação digital virou alavanca de negócios
Luciana Lima, CEO da Elementar, resume a mudança de mentalidade: “Os líderes entenderam que reputação digital não é vaidade nem vitrine de RH. É alavanca de negócios”.
O dado corroboram: 100% de adesão não acontece por acaso. O custo de não estar na plataforma superou o desconforto de se expor.
O que observar daqui pra frente
A próxima fronteira não é quantidade — é qualidade do debate. Pressão de investidores, regulação de ESG e cobrança por transparência climática tendem a forçar temas incômodos no feed dos executivos. Quem antecipar essa transição sai na frente. Quem insistir na “fala segura” corre o risco de falar sozinho em uma rede que, cada vez mais, premia posicionamento genuíno.
