Fernando Haddad (PT) apresentou ontem ao SP1, da TV Globo, seu plano de governo caso eleito governador de São Paulo: inteligência artificial para zerar filas do SUS, revisão dura dos contratos de concessão e modernização da segurança pública. A entrevista expôs um diagnóstico claro — o estado perdeu eficiência nos últimos anos — e propostas que, se implementadas, alteram a relação do setor privado com a máquina pública.
Saúde: IA no centro da regulação de vagas
O eixo mais técnico da candidatura passa pela Cross, a central que distribui pacientes pelo SUS estadual. Haddad promete transformar o sistema em uma “gestão de fila inteligente” no primeiro ano de mandato. A tecnologia integraria Samu, prontos atendimentos e leitos hospitalares em tempo real.
Não há meta numérica de redução — nem de pacientes, nem de tempo de espera. O compromisso é inverter a curva de crescimento atual. Para investidores em health tech e operadoras, o sinal é de abertura a parcerias tecnológicas, mas a ausência de metas mensuráveis deixa a execução em aberto.
Sabesp, CPTM e free flow: revisão com dentes
O tom mudou em relação a 2022. Haddad não fala em rompimento imediato, mas em auditoria contratual com equipe dedicada. Cláusulas de reajuste, metas de qualidade e penalidades serão revistas. “Vou multar e, se preciso, judicializar”, disse.
Para o mercado, três pontos merecem atenção:
- Revisão de cláusulas de reajuste tarifário — impacto direto no fluxo de caixa das concessionárias
- Possibilidade de novas exigências de investimento não previstas nos contratos originais
- Risco jurídico: judicialização alonga prazos e eleva custo de capital
Haddad evitou prometer conta de água mais barata. A redução dependeria, segundo ele, da margem aberta pela revisão contratual.
Segurança: BO por WhatsApp e patrulhamento orientado por dados
A proposta mais tangível para o cidadão comum é o registro de ocorrência via WhatsApp. Por trás, uma central unificada alimentaria modelos de IA para prever deslocamento de criminalidade e direcionar PM e Civil.
“O crime organizado muda de região e o Estado demora a chegar”, resumiu. A lógica é de policiamento preditivo — já testado em outras capitais com resultados mistos. A implementação exige integração de bancos de dados hoje fragmentados e marco legal para uso de dados sensíveis.
Educação: fim das plataformas, volta do professor
Haddad atribui a queda de São Paulo para 10º lugar no Ideb do Ensino Médio ao uso excessivo de plataformas digitais. A receita: concursos públicos, estágio probatório, efetivação dos bons professores e tempo para planejamento pedagógico.
Escolas cívico-militares não serão expandidas, mas comunidades que já adotaram o modelo poderão mantê-lo. A aposta alternativa são os Institutos Federais, com viés de educação profissional.
Habitação e interior: replicar o Plano Diretor da capital
A proposta é levar a experiência urbanística da gestão Haddad na prefeitura (2013-2016) para municípios do interior. Mudanças na legislação local reservariam áreas para habitação de interesse social, com apoio técnico e financeiro do estado.
O déficit habitacional paulista passa de 1 milhão de unidades. A capilaridade da medida depende de adesão das prefeituras — muitas de oposição — e de recursos do Fundo Estadual de Habitação.
O que observar daqui para frente
A entrevista de Tarcísio de Freitas (Republicanos) hoje ao meio-dia trará o contraponto direto. Dois vetores definem o cenário para os próximos meses: a disposição do mercado em precificar risco regulatório nos ativos de saneamento e transporte, e a capacidade de Haddad converter o diagnóstico técnico em narrativa eleitoral competitiva no interior — onde a rejeição de 48% (Datafolha) pesa mais. A política “difícil para todo mundo”, como ele definiu, será testada nas urnas em outubro.
