Andreas Mindt, chefe de design da Volkswagen, chamou de “absurda” a atual obsessão da indústria por grades gigantes, faróis afilados e linhas intimidadoras. Em entrevista à Autoweek, ele questionou: “Por que não dar aos carros uma aparência amigável?” A declaração sinaliza uma guinada estratégica que deve redesenhar a linha ID de elétricos nos próximos anos.
Mindt não poupou metáforas. “Não quero viver em um mundo onde os carros parecem ter sido projetados para matar zumbis”, afirmou. Para o executivo, a estética agressiva cria barreiras psicológicas para a adoção de veículos elétricos e alimenta uma rivalidade desnecessária entre motoristas de tecnologias diferentes.
O erro do futurismo forçado
A primeira geração da família ID tentou se diferenciar dos modelos a combustão com uma linguagem visual radicalmente nova. O resultado, segundo o próprio Mindt, foi um exagero. Ele citou nominalmente o ID.3 original: “não parece um VW de verdade”.
O reconhecimento do erro veio rápido. O ID.3 Neo, lançado posteriormente, já aponta para uma linguagem mais convencional e reconhecível. A marca alemã percebeu que consumidores não querem uma nave espacial na garagem — querem um Volkswagen.
Botões físicos voltam ao painel
A correção de rota não se limita ao exterior. Após enxurradas de reclamações sobre menus touchscreen excessivos, a Volkswagen reintroduziu controles físicos para funções essenciais como climatização e volume. A decisão contrasta com a direção de marcas do mesmo grupo:
- Lamborghini mantém estilo extravagante e telas integradas
- Cupra preserva identidade esportiva e digital-first
- Volkswagen aposta no equilíbrio entre tecnologia e usabilidade
Essa segmentação interna sugere que o grupo VW entende públicos distintos — e não tentará agradar a todos com uma única receita.
Design como ferramenta de transição
Mindt enxerga o visual “amigável” como alavanca comercial. Carros menos intimidadores reduzem a resistência emocional de compradores tradicionais, especialmente em mercados onde o elétrico ainda é visto com desconfiança. A estratégia mira o consumidor pragmático que quer sustentabilidade sem declaração de estilo radical.
Dados de mercado apoiam a tese: pesquisas internas mostram que 68% dos potenciais compradores de elétricos no Brasil e Europa citam “aparência estranha” como fator de rejeição. A Volkswagen aposta que normalizar o visual acelera a curva de adoção.
O que observar daqui pra frente
Os próximos lançamentos da linha ID — incluindo o ID.2all conceitual e a nova geração do ID.4 — serão o termômetro real dessa virada. Se a receita “amigável + botões físicos + identidade VW” funcionar, espere que concorrentes sigam o mesmo caminho. Caso contrário, a indústria pode voltar a buscar diferenciação pelo choque visual. Para investidores e gestores de frota, o sinal claro: usabilidade e familiaridade voltaram a valer mais que futurismo de salão.
