O avanço da inadimplência no Brasil coloca em xeque a estratégia de expansão agressiva do Nubank, que construiu seu império justamente atendendo o público rejeitado pelos bancos tradicionais. A fintech agora precisa provar que seu algoritmo de risco consegue separar bons pagadores de maus pagadores em um cenário onde o custo de errar ficou muito mais caro.
O dilema não é novo, mas ganhou urgência nos últimos trimestres. Com a Selic em patamares elevados e o endividamento das famílias batendo recordes sucessivos, a margem de erro para qualquer instituição que empreste para o varejo encolheu drasticamente.
O paradoxo da inclusão financeira
Daniele, autônoma de 30 anos, ouviu “não” de grandes bancos por quase uma década. Renda instável, histórico curto, perfil de risco difícil de mensurar. Para o modelo tradicional, ela era invisível. Para o Nubank, era oportunidade.
A fintech nasceu da promessa de usar dados alternativos — comportamento no app, pagamentos de contas, fluxo de caixa na conta digital — para precificar risco onde os bureaus tradicionais veem apenas lacunas. Funcionou enquanto a economia colaborava. Agora, o teste é real.
Como o ambiente macro muda a equação
Três variáveis mudaram simultaneamente e pressionam o modelo:
- Juros reais elevados encarecem o funding e reduzem a capacidade de pagamento dos tomadores
- Endividamento das famílias acima de 78% da renda disponível limita espaço para novas parcelas
- Desemprego ainda baixo, mas com sinais de deterioração em setores sensíveis a juros
O resultado imediato: o custo do risco (provisões para devedores duvidosos sobre a carteira) subiu mais rápido que a receita de juros em vários trimestres consecutivos. O mercado observa se a curva vai inverter.
A resposta da fintech: mais dados, menos impulso
A empresa tem ajustado a esteira de crédito. Critérios de aprovação foram endurecidos em segmentos de maior risco. Limites iniciais caíram. O tempo de relacionamento necessário para expansão de limite aumentou.
Paralelamente, o investimento em modelos proprietários de scoring acelerou. A ideia é substituir progressivamente a dependência de bureaus tradicionais por sinais comportamentais capturados no ecossistema próprio — pix, investimentos, seguros, conta PJ.
Mas há um limite: dados alternativos funcionam bem para quem já está dentro. Para o novo cliente, a assimetria de informação persiste.
O que os investidores monitoram agora
Três métricas ditam a narrativa nos próximos balanços:
- Evolução do NPL 90+ (inadimplência acima de 90 dias) por vintage de safra
- Relação entre custo do risco e spread líquido — o spread precisa absorber as perdas
- Crescimento da carteira sem deterioração da qualidade — expansão “saudável”
Analistas divergentes. Otimistas argumentam que a diversificação (consignado, PJ, imobiliário, México, Colômbia) dilui o risco Brasil. Céticos apontam que a carteira de cartão e empréstimo pessoal sem garantia ainda responde pela fatia majoritária do resultado e concentra a exposição.
O que observar daqui para frente
O próximo ciclo de queda de juros, quando vier, será o verdadeiro teste de estresse reverso. Quem concedeu crédito caro em 2024-25 verá a inadimplência cair naturalmente? Ou as safras recentes carregam problemas estruturais de seleção adversa que só aparecerão com atraso?
Para o empresário ou investidor, a lição prática: modelos de crédito baseados em dados comportamentais brilham em expansão, mas sua resiliência só se prova no ciclo completo. Acompanhar a composição da carteira por vintage e produto deixou de ser detalhe técnico — virou variável de valuation.
