Economia

Trump ataca o Brasil no boi, mas suas políticas dão sobrevida ao setor

Donald Trump discursando com gráficos de comércio de carne bovina Brasil-EUA ao fundo
Políticas de Trump contradizem retórica protecionista e favorecem exportações brasileiras de carne.

Donald Trump voltou a mirar o Brasil como vilão da carne bovina americana, mas o pacote de medidas que ele mesmo assinou está, na prática, abrindo as portas para o produto brasileiro nos EUA. A contradição expõe um jogo de forças que pode redefinir o comércio global de proteínas nos próximos meses.

O republicano acusa o país de “inundar” o mercado americano e pressionar pecuaristas locais. Ao mesmo tempo, a combinação de dólar forte, corte de subsídios internos e demanda aquecida cria uma janela rara para exportadores brasileiros.

O discurso duro e a realidade dos números

Em declarações recentes, Trump classificou a presença brasileira como “ameaça direta” à soberania alimentar dos Estados Unidos. A retórica atende à base eleitoral do Midwest, onde a pecuária é bandeira política.

Os dados, porém, contam outra história. No primeiro semestre, o Brasil embarcou 187 mil toneladas de carne bovina in natura para os EUA — alta de 42% sobre igual período de 2025. A receita superou US$ 1,1 bilhão.

Três fatores explicam o salto:

  • Ciclo de baixa do rebanho americano, o menor desde 1951
  • Preços internos dos EUA em patamar recorde, acima de US$ 6,50/libra no atacado
  • Tarifa de 26,4% para a cota excedente, ainda assim competitiva frente ao custo local

Por que a política de Trump ajuda o concorrente

A administração cortou subsídios ao milho e à soja usados na ração, elevando o custo de confinamento nos EUA. Paralelamente, a valorização do dólar — impulsionada por juros altos e déficit fiscal — barateia a proteína brasileira no mercado internacional.

O resultado: o boi gordo no Brasil negocia com desconto de até 35% em relação ao equivalente americano, mesmo com frete e tarifa.

Mas o efeito mais relevante aparece na indústria processadora. Grandes frigoríficos dos EUA, com ociosidade crescente, passaram a importar matéria-prima brasileira para manter as linhas ligadas. A JBS e a Marfrig, que operam nos dois países, são as principais beneficiadas.

O entrave sanitário que ninguém comenta

Apesar do fluxo crescente, a carne brasileira ainda enfrenta barreiras não tarifárias. O protocolo de equivalência sanitária entre MAPA e USDA trava há 18 meses, limitando a entrada a plantas específicas habilitadas.

Das 42 unidades brasileiras autorizadas a exportar para os EUA, apenas 14 estão ativas. A burocracia para novas habilitações pode levar até 24 meses.

Fontes do setor afirmam que uma missão técnica americana está prevista para outubro. Se houver avanço, o volume pode dobrar ainda em 2026.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditam o cenário até o fim do ano: a definição da cota tarifária de 2027 pelo USTR, o ritmo de reconstituição do rebanho americano e a postura do Congresso brasileiro sobre reciprocidade comercial.

Se Trump mantiver a pressão política mas a economia seguir favorecendo a importação, o Brasil consolida posição de fornecedor estratégico — com ou sem discurso amigável.

Para o empresário do agronegócio, o recado é claro: a janela está aberta, mas a trava sanitária continua sendo o verdadeiro gargalo. Quem resolver a habilitação de plantas agora colhe a vantagem quando a cota se expandir.