Brasil e EUA voltam à mesa de negociação no fim do mês para tentar reverter o tarifaço que atinge exportadores nacionais. O encontro em Milwaukee pode ditar o ritmo do comércio bilateral nos próximos trimestres. Mas a agenda real ainda é um mistério.
O estopim da crise: 25% sobre aço, calçados e etanol
Em julho, o escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) disparou uma sobretaxa de 25% sobre uma cesta diversificada de produtos brasileiros. A lista incluiu ferro e aço, vestuário, calçados, açúcar, etanol, farmacêuticos e maquinário agrícola.
A justificativa oficial apontava práticas brasileiras consideradas “descabidas” que oneravam agricultores e inovadores americanos. Semanas depois, veio o segundo golpe: mais 12,5% sobre itens adicionais, sob a alegação de falhas no combate ao trabalho forçado nas cadeias de suprimento.
A ponte Lula-Trump que reabriu o diálogo
O gelo diplomático começou a derreter em 21 de agosto. Uma ligação de 1 hora e 20 minutos entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump estabeleceu um novo canal direto entre Brasília e Washington.
Segundo o Planalto, o tom foi cordial. O resultado prático veio dez dias depois: uma reunião virtual entre o ministro Márcio Elias Rosa e Jamieson Greer, do USTR, para estruturar a renegociação.
O que está na mesa em Milwaukee?
O ministro Elias Rosa confirmou o encontro presencial para 30 de setembro e 1º de outubro, à margem da reunião de ministros do Comércio do G20. Detalhes da pauta não foram divulgados, mas o histórico recente permite mapear os pontos sensíveis:
- Revisão das alíquotas sobre aço, alumínio e manufaturados leves.
- Certificação de origem e rastreabilidade para afastar a taxação por trabalho forçado.
- Acesso a compras governamentais e barreiras não tarifárias.
- Mecanismo de consulta rápida para evitar novas surpresas unilaterais.
Impacto direto no fluxo de caixa das empresas
Para o empresariado, a incerteza custa caro. Exportadores de calçados e móveis relatam cancelamento de pedidos e renegociação de contratos com cláusulas de force majeure. No agronegócio, a sobretaxa no etanol e no açúcar reduziu a competitividade justamente na safra de pico.
Uma eventual redução — mesmo que parcial — alivia margens e permite recompor planejamento logístico para o quarto trimestre. Mas o efeito dominó atinge também importadores de insumos americanos, que enfrentam retaliações cruzadas.
Cenários para os próximos 90 dias
Três desfechos são monitorados por analistas de comércio exterior. O otimista prevê suspensão imediata das sobretaxas adicionais (12,5%) e cronograma de queda para a alíquota base. O intermediário mantém as tarifas, mas cria grupo de trabalho técnico com prazos definidos. O pessimista: reunião protocolar sem avanços, empurrando a solução para 2027.
Mas o efeito mais relevante aparece no setor de serviços e tecnologia, onde barreiras regulatórias superam as tarifárias.
O que observar daqui para frente
Fique atento à publicação da pauta oficial do G20 Comércio nas próximas semanas. A inclusão de “práticas não tarifárias” na agenda sinaliza disposição para ir além das alíquotas. Outro termômetro: a movimentação de lobbies setoriais em Washington. Se a indústria americana de aço e calçados pressionar para manter as barreiras, a margem de manobra de Greer encolhe.
Para o gestor brasileiro, a ação prática agora é auditar a cadeia de compliance trabalhista e preparar dossiês técnicos que embasem pedidos de exclusão produto a produto. A janela de Milwaukee é estreita; quem chegar com dever de casa feito sai na frente.
