Steven Bartlett está a poucos meses de destronar Joe Rogan como o podcast mais assinado do YouTube, mas o fundador de The Diary of a CEO não quer ser apenas o número um em audiência. Ele está construindo uma máquina de mídia avaliada em US$ 425 milhões — e pretende manter o controle total por décadas.
Com 19,5 milhões de inscritos e picos mensais acima de 100 milhões de visualizações, o programa britânico cresce num ritmo que projeta a ultrapassagem dos 21,1 milhões de Rogan ainda em 2025. A ironia? O homem por trás do fenômeno viralizou recentemente por recusar duas taças de vinho, alegando que o álcool estraga sua produtividade por dias.
O jogo não é audiência, é infraestrutura
Bartlett, de 34 anos, deixa claro que o podcast é apenas a “vitrine”. A tese de investimento da sua holding, a Steven.com, é verticalizar tudo o que um criador de grande porte precisa: produção de vídeo, tecnologia própria, agenciamento de turnês, vendas de patrocínio e gestão de propriedade intelectual.
Em vez de assinar com agências externas, ele oferece um balcão único. Hoje, a estrutura já atende nomes como Davina McCall e Paul C. Brunson. A promessa aos investidores na nova rodada de captação — que deve superar a avaliação bilionária do ano passado — é simples: eliminar a fragmentação que drena margem e velocidade dos creators.
- Produção interna: estúdios, edição, distribuição multiplataforma.
- Tecnologia: ferramentas de IA para checagem de fatos e otimização de cortes.
- Comercial: vendas diretas de anúncios e turnês ao vivo.
- Equity: participação acionária nos negócios dos criadores parceiros.
Controvérsias que não frearam o valuation
A trajetória até aqui acumula cicatrizes. Em 2019, a fusão da sua startup anterior (Social Chain) com uma alemã gerou questionamentos contábeis. No podcast, especialistas em saúde pública criticam a falta de rigor com alegações de convidados sobre Covid, câncer e protocolos de “biohacking”.
Há também o debate sobre a proximidade com figuras da manosphere. Bartlett rebate dizendo que não é jornalista, mas adotou medidas inéditas no meio: notas de correção na tela durante os episódios e uma parceria com IA para auditar transcrições em tempo real, sinalizando imprecisões antes da publicação.
A arquitetura do controle
Diferente da maioria dos founders de mídia digital, Bartlett não vendeu a alma para venture capital. Na última rodada, manteve mais de 90% da empresa e estruturou o conselho para garantir poder de veto vitalício. “Essa é minha última dança”, repete ele, que começou a empreender online aos 18 anos e hoje integra o elenco de Dragons’ Den, o “Shark Tank” britânico.
O escritório em Shoreditch, Londres, reflete a estética da marca: nave espacial metálica de dois andares no centro do open space, luz natural para “controlar cortisol”, ar filtrado para foco cognitivo e geladeira abastecida com suplementos das quais ele é investidor (Cadence e Perfect Ted). Tudo projetado para ser conteúdo em si mesmo.
O que observar nos próximos trimestres
Três variáveis definem se a tese se sustenta: o fechamento da nova rodada acima de US$ 425 milhões sem diluição relevante; a efetiva ultrapassagem de Rogan no YouTube, o que dispara prêmios de mídia kit; e a capacidade de replicar o modelo “balcão único” para dezenas de creators médios, não apenas estrelas já estabelecidas.
Se der certo, Bartlett não terá apenas o maior podcast do mundo. Terá a primeira holding de mídia nativa da economia de creators com escala global e governança de empresa familiar. O vinho, pelo visto, continuará na adega.
