Economia

O segredo que mantém o agronegócio financiado: gigantes pressionam presidenciáveis

Líderes do agronegócio e autoridades em Brasília discutem isenção fiscal para títulos do agro
Gigantes do setor pressionam candidatos para manter isenção de IR em LCI, LCA, CRI, CRA e Fiagro.

As maiores companhias abertas do Brasil acabam de colocar uma carta na mesa dos dois principais candidatos à Presidência: a isenção de IR sobre LCI, LCA, CRI, CRA e Fiagro não pode acabar. O documento, preparado pela Abrasca, será entregue hoje ao ministro Dario Durigan e, até o fim do mês, à equipe de Flávio Bolsonaro.

Por que isso importa agora? Porque esses títulos foram o motor invisível por trás do recorde de R$ 963 bilhões em ofertas públicas no ano passado — quase meio trilhão só em debêntures.

O que está em jogo para quem investe

A equipe econômica tenta extinguir a isenção desde o início do mandato. O argumento do Tesouro é técnico: títulos isentos forçam o governo a pagar juros maiores nos papéis tributados para competir pelo mesmo dinheiro. Na prática, encarece a dívida pública.

Mas a Abrasca rebate com números. Em juros reais entre os mais altos do mundo, o custo de capital das empresas dispara. Sem a isenção, o financiamento de curto e médio prazo — especialmente no agronegócio — trava.

  • R$ 963 bi em ofertas públicas totais (2025)
  • R$ 493 bi captados via debêntures
  • Crescimento dos títulos isentos superou o restante da renda fixa

O argumento que o mercado não ignora

“Empresa nenhuma investe por dez, quinze anos onde tudo muda a cada mandato.” A frase de Cátilo Cândido, presidente-executivo da Abrasca, resume o ponto central do documento: previsibilidade regulatória.

A entidade pede que qualquer mudança na tributação de instrumentos de financiamento seja precedida de análise de impacto econômico. Não é só sobre LCI e LCA. A lista inclui lucros, dividendos, juros sobre capital próprio e estrutura de dívida.

Além da isenção: a agenda 2027-2030

O documento entregue aos candidatos vai além da defesa dos títulos isentos. A Abrasca quer:

  • Mercado de capitais tratado como política de Estado
  • CVM fortalecida — autonomia técnica, orçamento próprio, quadros especializados
  • Maior interlocução entre órgãos reguladores
  • Estabilidade fiscal e macroeconômica para reduzir prêmio de risco
  • Segurança jurídica de longo prazo

O crescimento da dívida pública e a incerteza sobre sua trajetória mantêm as taxas de longo prazo muito acima de pares emergentes. Isso eleva o custo de oportunidade e o custo de capital de todas as empresas listadas.

O que observar daqui para frente

O Congresso já barrou uma tentativa de fim da isenção. Mas a pressão fiscal não desaparece. Se o próximo governo precisar de receita extra, os títulos incentivados voltam ao alvo. O recado das maiores empresas do país é claro: mexa nisso só com estudo de impacto — e com prazo para adaptação. O agronegócio e o mercado imobiliário, principais beneficiários diretos, são setores que não aceitam surpresas.