O governo brasileiro confirmou que deve sentar à mesa com o principal negociador comercial dos Estados Unidos ainda este mês. O encontro está previsto para ocorrer à margem da reunião de ministros de Finanças do G20, marcada para 30 de setembro e 1º de outubro em Milwaukee, Wisconsin.
A informação foi dada pelo ministro da Indústria, Márcio Elias Rosa, que viajará ao lado do chanceler Mauro Vieira. O objetivo: discutir o pacote de tarifas que atinge produtos brasileiros desde julho.
Duas tarifas, um mesmo alvo
Os Estados Unidos aplicam hoje duas sobretaxas distintas sobre itens nacionais. A primeira, de 25%, foi imposta sob a alegação de práticas comerciais desleais. A segunda, de 12,5%, substituiu a tarifa global de 10% e mira supostas falhas no combate à importação de bens produzidos com trabalho forçado.
- 25% — práticas comerciais consideradas desleais
- 12,5% — lacunas no controle de trabalho forçado (antes era 10%)
Na última rodada, em 31 de agosto, a delegação brasileira classificou as medidas como unilaterais, injustas e incompatíveis com as regras da Organização Mundial do Comércio.
O que mudou desde agosto
Segundo o ministro, as equipes técnicas dos dois países mantiveram canal aberto nas últimas semanas. “Estamos só trocando documentos e encaminhando essa próxima reunião”, disse Elias Rosa. Não há, porém, esboço público de acordo.
Questionado sobre a pauta específica ou possíveis concessões, o ministro preferiu não detalhar. A estratégia do governo é manter as cartas na mesa até o encontro presencial.
Por que Milwaukee importa
A escolha do G20 como palco não é casual. O fórum reúne as maiores economias do mundo e oferece ambiente controlado para conversas bilaterais de alto nível. A presença simultânea de ministros da Fazenda e Relações Exteriores amplia a margem de manobra política.
Além disso, a reunião ocorre em solo americano — o que, na prática, facilita a logística para o lado norte-americano e sinaliza disposição de diálogo da gestão Biden.
Setores sob pressão
Embora a lista completa de produtos atingidos não tenha sido detalhada na coletiva, setores exportadores intensivos — aço, alumínio, carnes e calçados — seguem monitorando cada sinal. A incerteza tarifária trava investimentos e alonga prazos de decisão.
Exportadores relatam que contratos de longo prazo ficaram mais difíceis de fechar. Compradores internacionais hesitam em travar preços quando a tarifa final pode mudar em semanas.
O que observar daqui para frente
Três pontos devem ditar o ritmo nas próximas semanas: a disposição americana de revisar a tarifa de 12,5% — a mais recente e tecnicamente mais complexa —; a capacidade brasileira de apresentar evidências concretas de conformidade trabalhista; e o calendário eleitoral dos EUA, que costuma endurecer o discurso comercial em ano de disputa presidencial.
Se houver avanço em Milwaukee, a sinalização deve vir por meio de comunicado conjunto ou anúncio de grupos de trabalho temáticos. Sem isso, o cenário-base segue sendo a manutenção das barreiras até o fim do ano.
