O chairman do BTG Pactual, André Esteves, classificou como “completamente absurdo” o volume de títulos isentos no Brasil e defendeu a revisão desses benefícios como parte indispensável de qualquer ajuste fiscal. A declaração, feita durante evento do grupo Esfera nesta segunda-feira (14), coloca em xeque uma estrutura que triplicou de tamanho em apenas cinco anos.
Mas o choque não está apenas na crítica de um dos maiores banqueiros do país. O dado que assusta investidores e empresários é a velocidade com que essa montanha de isenções cresceu — e a conta que chega para o Tesouro.
O número que explica a revolta
Entre 2020 e 2025, as emissões de CRIs, CRAs, LCIs, LCAs e debêntures incentivadas saltaram para R$ 896,5 bilhões. Isso representa um crescimento superior a 200% no período. Para comparação, as ofertas do Tesouro Nacional avançaram 37%, atingindo R$ 1,7 trilhão, enquanto os CDBs subiram 78%.
Em termos práticos: a fatia do bolo destinada a papéis com benefício fiscal expandiu-se a um ritmo três vezes mais acelerado que o restante do mercado de renda fixa. Quem paga a diferença é a arrecadação federal — e, no fim, o contribuinte.
Resumo da disparada (2020 → 2025):
- Títulos isentos/incentivados: +200% (R$ 896,5 bi)
- Tesouro Nacional: +37% (R$ 1,7 tri)
- CDBs: +78% (R$ 11,4 bi)
O contra-ataque das grandes empresas
Enquanto o mercado digere a crítica, a Abrasca — associação que reúne as maiores companhias abertas do país — prepara ofensiva contrária. A entidade vai entregar ainda hoje aos principais candidatos à Presidência um documento defendendo a manutenção integral das isenções.
O argumento: esses títulos são “essenciais” para o financiamento de curto e médio prazo das empresas, com destaque para o agronegócio. O texto será apresentado primeiro ao ministro da Fazenda, Dario Durigan, e, até o fim do mês, à equipe econômica de Flávio Bolsonaro.
Juros, fiscal e o risco que tira o sono
Esteves não parou nas isenções. Voltou a atacar o nível da Selic e afirmou que o caminho para juros menores é “cientificamente comprovado”: equilíbrio fiscal. “Se gastarmos mais do que ganhamos, vamos ter problemas. Isso não é pauta de direita nem de esquerda”, resumiu.
Questionado sobre o maior risco para o Brasil, o banqueiro surpreendeu ao apontar o flanco institucional, não o econômico. “O econômico tem fórmula. O institucional me preocupa mais. A guerra pelo Brasil institucional é a que não podemos perder. Senão, vamos para um lugar entre o México e a Rússia.”
A referência direta à crise no STF — caso Master — e aos pedidos de apuração, afastamento e códigos de ética para autoridades mostra como o ambiente político contamina a percepção de risco dos grandes investidores.
Eleição no radar e o cenário de 51 a 49
Sobre 2026, Esteves desenhou um quadro de incerteza absoluta: “A eleição vai ser 51% a 49% no segundo turno, a gente só não sabe para quem”. A margem mínima prevista para o próximo pleito amplia a relevância de cada sinal fiscal — e de cada isenção mantida ou cortada.
O que observar daqui para frente
A disputa pela renúncia fiscal está apenas começando. De um lado, a pressão por receita para fechar as contas públicas. Do outro, o lobby setorial argumentando que cortar isenções estrangula o crédito produtivo. Para quem gere carteiras ou planeja captações, três variáveis merecem monitoramento contínuo: a tramitação de eventuais projetos de lei que limitem benefícios, a sinalização do próximo governo sobre a meta fiscal e o comportamento dos spreads nos títulos incentivados versus Tesouro Direto. Quem antecipar a movimentação dessas peças ganha tempo — e rentabilidade.
