Economia

Confiança industrial afunda 1,4 ponto e completa 21 meses de pessimismo

Gráfico de linha mostra queda contínua do Índice de Confiança do Empresário Industrial para 44,9 pontos, 21 meses abaixo de 50
Icei atinge 44,9 pontos em setembro, nono mês consecutivo de pessimismo industrial

O Índice de Confiança do Empresário Industrial (Icei) recuou para 44,9 pontos em setembro, a nona queda consecutiva abaixo da linha divisória dos 50 pontos. A indústria brasileira acumula agora 21 meses seguidos sem confiança — o período mais longo já registrado pela série histórica iniciada em 2010.

O tombo de 1,4 ponto em relação a agosto não veio isolado. Todos os componentes do indicador cederam simultaneamente, sinalizando que o desânimo percorre tanto o diagnóstico do presente quanto as apostas para o futuro próximo.

O retrato do momento: números que não mentem

A CNI ouviu 1.186 empresas entre 1º e 8 de setembro. A amostra contempla 475 pequenos, 441 médios e 270 grandes estabelecimentos. O resultado compõe um mosaico de cautela generalizada:

  • Condições atuais da economia: 33 pontos (-3,6 pts)
  • Condições das próprias empresas: 43,8 pontos (-1,9 pt)
  • Índice de Condições Atuais (geral): 40,2 pontos (-2,5 pts)
  • Expectativas para a economia: 39,1 pontos (-0,6 pt)
  • Expectativas para as empresas: 51,3 pontos (-1 pt)
  • Índice de Expectativas (geral): 47,2 pontos (-0,9 pt)

O único componente que permanece acima de 50 pontos é a expectativa em relação ao próprio negócio — ainda assim, em trajetória descendente.

Por que a melhora de 2026 não segurou o indicador

Nos primeiros meses do ano, o Icei ensaiou recuperações pontuais. Chegou a flertar com a neutralidade em março e junho. Mas cada alta foi seguida de nova queda, impedindo a consolidação de um ciclo de confiança.

Segundo Marcelo Azevedo, gerente de Análise Econômica da CNI, as oscilações positivas foram “pontuais e não mudaram muito o quadro”. A avaliação das condições correntes da economia brasileira — que despencou 3,6 pontos de uma vez — funciona como um freio de mão puxado toda vez que o indicador tenta avançar.

O que separa pessimismo de depressão

A linha dos 50 pontos não é arbitrária. Acima dela, a maioria dos empresários enxerga expansão. Abaixo, a maioria vê contração. Vinte e um meses nesse território equivalem a quase dois anos de planejamento travado, investimentos adiados e contratações congeladas.

Para efeito de comparação, o ciclo anterior mais longo durou 19 meses, entre 2015 e 2016 — período que coincidiu com a recessão mais profunda da história recente. O recorde atual supera esse marco sem que haja, tecnicamente, uma recessão declarada.

O que observar daqui para frente

Três variáveis devem ditar os próximos movimentos do Icei: a trajetória da Selic nas próximas reuniões do Copom, o ritmo de execução do novo PAC industrial e a resposta do crédito direcionado via BNDES. Qualquer sinal de alívio no custo de capital tende a refletir primeiro nas expectativas das grandes empresas — justamente o segmento que ainda mantém viés levemente otimista (51,3 pontos).

Enquanto isso, o empresariado de menor porte segue na defensiva. Pequenas indústrias, mais sensíveis a capital de giro e inadimplência, costumam ser as últimas a sentir a virada de ciclo. O Icei de outubro, previsto para meados do mês que vem, será o primeiro teste se a queda de setembro foi um soluço ou o início de nova perna descendente.