A probabilidade de uma alta dos juros nos Estados Unidos saltou de 63% para 86% em poucas semanas, e a decisão pode sair ainda nesta reunião do Federal Reserve. O movimento já fortalece o dólar e empurra os rendimentos dos Treasuries para máximas de anos, redesenhando o cenário para quem investe ou gere negócios no Brasil.
O gatilho veio de Jackson Hole. Kevin Warsh, presidente do Fed, admitiu que o progresso contra a inflação foi “modesto” nos últimos dois anos e sinalizou trabalho adicional caso os preços sigam acima da meta. A fala mudou o jogo: o mercado deixou de apostar em outubro e passou a precificar alta imediata.
Os números que assustam o banco central americano
O PCE, indicador preferido do Fed, acumula alta de 3,7% em 12 meses até julho. O CPI mais recente subiu 0,4% no mês e 3,4% no ano — o dobro da meta de 2%. Paralelamente, o mercado de trabalho mostrou músculos: 162 mil vagas abertas em agosto contra expectativa de 55 mil.
Com emprego aquecido e inflação resistente, o mandato duplo do Fed (preços estáveis e emprego máximo) fica tensionado. A instituição ganha espaço para manter a postura restritiva por mais tempo.
Treasuries disparam e dólar ganha fôlego
A resposta dos títulos públicos foi imediata. Na sexta-feira (11), os rendimentos tocaram patamares que não se viam há muito tempo:
- Treasury de 2 anos: 4,64% — maior desde julho de 2024
- Treasury de 10 anos: 5,05% — pico desde outubro de 2023
- Treasury de 30 anos: 5,38% — topo desde junho de 2007
O dólar acompanha. Taxas mais altas nos EUA aumentam a atratividade de ativos denominados na moeda, drenando capital de mercados emergentes e pressionando bolsas globais.
O fator Irã: petróleo a US$ 109 e inflação importada
A escalada do conflito no Oriente Médio adiciona uma variável perigosa. O barril de Brent fechou a US$ 109,29 na quinta-feira (10), alta de 7,98% — maior valor desde maio. Donald Trump já avisou: o petróleo deve seguir elevado até as eleições de meio de mandato, diante da ausência de acordo entre Washington e Teerã.
Para Leonel Oliveira Mattos, da StoneX, a interrupção de fluxos no Golfo Pérsico eleva o risco inflacionário nos próximos meses. “O balanço de riscos para a decisão do Fed realmente parece inclinado para maior risco inflacionário”, resume.
Brasil no meio do tiroteio: Selic caindo, Fed subindo
Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, desenha o dilema local: “No mesmo período em que pode haver um corte nos juros daqui, a dos EUA pode aumentar, o que reduz o nosso diferencial de juros.”
O corte da Selic, amplamente esperado, perde poder de atração se o carry trade (ganho com diferença de juros) encolhe. Empresas brasileiras também sentem: financiamento em dólar fica mais caro e a volatilidade nas bolsas aumenta.
Por que a Bolsa brasileira ainda resiste
Dois pilares sustentam o Ibovespa, que acumula alta de cerca de 16% no ano, enquanto o dólar recua 5,44%:
- Commodities: o próprio petróleo caro beneficia petroleiras e exportadoras nacionais; o Brasil não depende do Estreito de Hormuz e não está envolvido no conflito
- Cenário eleitoral: pesquisas mostram força de Flávio Bolsonaro (PL), visto pelo mercado como mais alinhado à disciplina fiscal que o atual governo
“O mercado brasileiro está bem posicionado, não tem tanta dependência do estreito de Hormuz, não está implicado na guerra e tem o próprio petróleo”, reforça Zogbi.
O que observar daqui para frente
A reunião do Fed desta semana é o divisor de águas. Se a alta se confirmar, o ciclo de “juros altos por mais tempo” ganha força — e o diferencial Brasil/EUA continua comprimindo. Acompanhe três variáveis: a taxa de 10 anos dos Treasuries (se sustenta acima de 5%), o Brent (se consolida acima de US$ 100) e o fluxo estrangeiro na B3 (se inverte para saída líquida). O cenário de “corte aqui, alta lá” é o maior risco assimétrico para ativos brasileiros no curto prazo.
