Cultura

O segredo por trás da maior feira a céu aberto da América Latina…

Heloisa Pires Lima, primeira patrona negra da Feira do Livro de Porto Alegre, ao lado da presidente, simbolizando liderança feminina histórica
Mulheres assumem presidência e patronato da 72ª Feira do Livro de Porto Alegre pela primeira vez em 70 anos.

A 72ª Feira do Livro de Porto Alegre bateu um recorde histórico antes mesmo de abrir as portas: pela primeira vez em sete décadas, mulheres ocupam simultaneamente a presidência e o patronato do evento. A antropóloga e escritora Heloisa Pires Lima assume como a primeira patrona negra da história da feira, sinalizando uma virança estrutural no maior encontro literário a céu aberto da América Latina.

O que essa mudança de comando revela sobre o futuro do mercado editorial brasileiro? A resposta passa por números que vão muito além da simbolização.

A matemática da representatividade

Em um estado onde 21% da população se declara negra, a escolha de Heloisa quebra um ciclo de 72 anos de ausência. Ela é apenas a segunda pessoa negra a receber o título — o primeiro foi o escritor Luis Fernando Verissimo, em 2007 —, mas a primeira mulher. A presidente da Câmara-Riograndense do Livro, Roseni Siqueira Kohlmann, completa a dobradinha inédita na gestão executiva.

Não se trata apenas de preencher cargos. O patronato funciona como uma bússola curatorial: a trajetória do escolhido dita o tom da programação, dos debates e das prioridades pedagógicas dos 17 dias de evento. Com mais de 700 atividades gratuitas previstas, a direção dada agora ecoa em escolas, bibliotecas e livrarias o ano inteiro.

Por que a literatura infanto-juvenil virou o centro da estratégia

Heloisa construiu carreira editando e escrevendo para crianças e jovens com protagonismo negro. Essa especialização não é um detalhe: ela ataca a raiz do problema da formação de leitores no Brasil. Dados recentes do IBGE mostram que a leitura cai vertiginosamente após a infância, e a falta de identificação nas narrativas é um dos motores dessa evasão.

A autora resume o dilema em uma frase que resume o desafio do setor: “Não adianta incentivar a leitura com livros racistas.” A afirmação desloca o foco da quantidade de títulos para a qualidade da representação. Para investidores e gestores de conteúdo, o recado é claro: o mercado que ignora a diversidade na base está fadado a encolher no topo.

O impacto direto na cadeia produtiva do livro

A feira movimenta uma cadeia que envolve editoras independentes, grandes grupos, livreiros, autores e logística de distribuição. A curadoria de uma patrona voltada à literatura infantojuvenil negra tende a:

  • Ampliar a visibilidade de selos especializados em diversidade;
  • Redirecionar verbas públicas de aquisição para acervos escolares mais representativos;
  • Criar demanda por profissionais (ilustradores, tradutores, revisores) de grupos sub-representados.

Essa reconfiguração de demanda não acontece no vácuo. Editores que já operam nesse nicho relatam crescimento de dois dígitos nos últimos ciclos de compras governamentais (PNLD), sugerindo que a feira funciona como termômetro e acelerador de políticas públicas.

O que observar nos próximos 12 meses

A 72ª edição termina, mas a gestão de Heloisa se estende até a próxima feira. O verdadeiro teste de permanência dessa virança será a capacidade de transformar o protagonismo simbólico em contratos de longo prazo, editais inclusivos e presença constante nas listas de adoção escolar. O mercado observa: a feira a céu aberto virou vitrine de uma transformação que, se sustentada, redefine o perfil do leitor — e do consumidor — brasileiro da próxima década.